Barueri – O conceito clássico de soberania nacional, aquele que garante aos Estados o direito de autogoverno sem interferências externas, parece estar passando por um processo de “liquidação” na América Latina. Sob a administração de Donald Trump, o hemisfério ocidental não é mais visto como uma coleção de nações parceiras, mas como uma zona de gestão de crises e contenção de adversários.
A análise do cenário atual revela que a soberania na região tornou-se, na prática, condicional. Washington não esconde mais o jogo: o direito de um país latino-americano de decidir seu destino termina onde começam as prioridades domésticas da Casa Branca — a ganância do petróleo.
A Doutrina da “Soberania Condicional”
Diferente das administrações anteriores, que mantinham uma “fachada de multilateralismo”através da OEA (Organização dos Estados Americanos), o governo Trump opera sob um pragmatismo agressivo. Para o atual gabinete, a soberania é um privilégio concedido àqueles que colaboram, e evidentemente, se escravizam aos delírios de Trump.
Um exemplo claro é a política de “Tarifas por Cooperação”. Países que não interrompem fluxos migratórios ou que mantêm laços estreitos com Pequim enfrentam retaliações econômicas que estrangulam suas soberanias internas. Ao usar o acesso ao mercado americano como arma, Washington dita as políticas alfandegárias e até judiciais de seus vizinhos.
O Fator China: O Fim da Livre Escolha
A maior evidência da erosão soberana está na economia. A pressão para que países como Brasil, Argentina e Chile rejeitem investimentos chineses em infraestrutura crítica — como portos e redes 5G — retira dessas nações o poder de gerir seus próprios planos de desenvolvimento. No “Mundo de Trump”, negociar com a China é interpretado como um ato de hostilidade à segurança hemisférica dos EUA.
Militarização e Intervenção Unilateral
O ponto de maior tensão em 2026 é a designação de cartéis de drogas como Organizações Terroristas Estrangeiras. Esta manobra jurídica dá a Washington o pretexto necessário para ignorar fronteiras. Quando drones americanos operam em território estrangeiro sem coordenação prévia, a ideia de “soberania territorial” torna-se obsoleta, substituída pela segurança nacional americana projetada além-mar.
O Veredito
Para os críticos, a América Latina está sendo empurrada de volta ao século XIX, mas com ferramentas de controle do século XXI. A autonomia política dos governos regionais agora opera dentro de um cercado estreito: eles podem escolher seus presidentes e leis, desde que essas escolhas não perturbem a visão de “América Primeiro” que emana de Washington.
A soberania latino-americana, portanto, não deixou de existir nos mapas, mas no tabuleiro real da política, ela nunca foi tão frágil.
A liberdade de uma nação é o escudo de todas as outras: somente quando o povo americano se unir aos seus irmãos do sul para desmantelar as cercas do autoritarismo é que a democracia voltará a ser o idioma comum das Américas.
©️ Beatriz Esmer
