Pobreza

A pobreza vai muito além da simples falta de dinheiro. É um estado dilacerante de isolamento, vulnerabilidade, humilhação e desconfiança. Ela arranca a capacidade de diferenciar quem contrata de quem explora e abusa, borrando os limites até que tudo se misture. Ela cospe na ilusão simplista da meritocracia — aquela falsa crença de que o esforço individual é o único determinante das recompensas na vida. É a dor de saber, com o coração partido, que sua mãe, com as juntas castigadas pela artrite, insônia crônica e estresse pós-traumático, continua a ralar até tarde da noite. Ela vira garçonete ganhando abaixo … Continue reading Pobreza

The Mystery of Not Fitting Within

I will never get used to myself. There is an awkwardness in simply inhabiting my own skin, as if I had arrived midway through a play without knowing the script, yet forced to improvise every line. In the vast universe of my own existence, I am a solitary pilgrim—walking corridors that lead only to more corridors, always in search of what I know I will never find. Because the finding would mean an end, and how could something so vast ever end? I am an enigma to be unraveled, though the threads keep tangling in my hands. An incomplete melody—a … Continue reading The Mystery of Not Fitting Within

A Grandeza da Vida

Pensa que se morre. E, antes que o inevitável silêncio nos tome, há esse direito frágil, quase indecente, a um instante de bem. Carrego essa vertigem no corpo. Ela esculpe cada gesto meu com uma urgência que é, ao mesmo tempo, doce e implacável. Escuto com uma clemência que me espanta; não procuro apenas o que as palavras ousam dizer, mas tateio os abismos daquilo que os silêncios escondem. Olho. Olho com um assombro quase selvagem as raposas, as andorinhas rasgando o céu, o vento que não pede licença, o trigo que se curva. Neles, encontro a sabedoria secreta, muda … Continue reading A Grandeza da Vida

Tears

How many tears will be enough to wash me from the darkness where the heart resides? How much must I cry, and having cried, dry myself, revealing a side hitherto immersed in sorrows? How much sadness must I release and renew, so that I may always have something to cry for? How much do I insist on myself and give up on myself in the same instant? How much of me is the sea? For I fulfill daily fears that memories are made of water, and I will forever drown. How much of me is aridity? For I bring fears … Continue reading Tears

Ode aos Eternos da Palavra Brasileira

Na infância capturada em preto e branco,brilham os olhos que um dia veriam o Brasil com alma.Cada rosto, uma semente de verbo,cada sorriso, um prelúdio de páginas que mudariam mundos. Clarice Lispector, com seu mistério de dentro: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”E assim, ela nos ensinou a sentir o indizível. Guimarães Rosa, sertanejo de estrelas: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”E o meio virou eternidade. Carlos Drummond de Andrade, pedra no caminho e poesia no peito: “No meio do caminho … Continue reading Ode aos Eternos da Palavra Brasileira

Togetherness

You speak of miracles and how the Sun radiates through him. How his skin is an anthology of love poems, each touch a stanza of eternal affection. His bones wrapped in honey, sweet and golden, a testament to the warmth he carries. His heart, an ocean, vast and profound, holding depths of emotions that ripple endlessly. And what of me, if he is the Sun? My body is the moon, reflecting his light, a silvery glow that dances in the night. My skin is a canvas of whispers, each caress a secret written in the language of the stars. My … Continue reading Togetherness

A Poesia que me Habita

Enquanto me aguardo, visitam-me as palavras — como velhas conhecidas que chegam sem aviso, mas sempre no tempo certo. Elas se acomodam entre os silêncios e os suspiros, sussurrando segredos que nem eu sabia que guardava. Busco entre os meus versos e frutos, colhidos com mãos trêmulas e alma inquieta, alguma desavisada certeza de mim. Talvez um reflexo, talvez um eco. Uma distraída verdade oculta nas entrelinhas desta vida caótica, onde tudo parece ruir e renascer ao mesmo tempo. É nesse intervalo entre o que sou e o que espero ser que as palavras me encontram. Elas não pedem licença … Continue reading A Poesia que me Habita

Frágil

Existem, afinal, tantas coisas frágeis. A gente se assusta com a violência do mundo, mas o que espanta mesmo é a facilidade com que tudo se desfaz por dentro. As pessoas quebram tão fácil… como se fossem feitas de um vidro antigo, esquecido no fundo de uma gaveta, que ao menor toque já estilhaça em mil pedaços invisíveis que cortam a gente sem a gente ver. E não são só os corpos. Os sonhos também. Ah, esses têm uma consistência de fumaça, um sopro bobo e eles se desmancham no ar, deixando aquele gosto de poeira e silêncio na boca. … Continue reading Frágil

Janela

Quando a morte rouba alguém, sinto o peso frágil do tempo. Para quê tanta pressa em nos afastarmos? Gastamos a vida em desentendimentos mesquinhos, usando as palavras como facas ou armadilhas, esquecendo-nos de que a existência é um sopro. Confesso: também criei distâncias. Afastei-me por orgulho, por cansaço, por achar que o outro doía demais. Há uma liberdade espinhosa em decidir não perdoar, em deixar ir. Mas a morte chega e transforma tudo em balões perdidos no céu. O vento leva, e já não há braços longos o bastante para alcançá-los. A nossa janela pode estilhaçar-se a qualquer instante, sem … Continue reading Janela

O Ritmo dos Corações

Se, em um ato de desmedida coragem, apertássemos o peito contra o peito de alguém, haveria de chegar o momento em que os corações, exaustos de solidão, começariam a pulsar no mesmo compasso. É um mistério sutil e físico: até dois pequenos recém-nascidos, confinados ao silêncio estéril de uma incubadora, alinham sem querer as suas batidas e fazem da vida um eco compartilhado. Eu amo isso. Há uma urgência terna nessa sincronia. Eis que me ocorre: se tens na tua rota alguém que traz consigo a sombra inquieta da ansiedade — como eu —, e por ventura te coube a … Continue reading O Ritmo dos Corações