A Grandeza da Vida

Pensa que se morre. E, antes que o inevitável silêncio nos tome, há esse direito frágil, quase indecente, a um instante de bem. Carrego essa vertigem no corpo. Ela esculpe cada gesto meu com uma urgência que é, ao mesmo tempo, doce e implacável. Escuto com uma clemência que me espanta; não procuro apenas o que as palavras ousam dizer, mas tateio os abismos daquilo que os silêncios escondem. Olho. Olho com um assombro quase selvagem as raposas, as andorinhas rasgando o céu, o vento que não pede licença, o trigo que se curva. Neles, encontro a sabedoria secreta, muda e inegociável da terra.

Aprender a inclinar-se. É quase um ofício sagrado abaixar-se para tocar a margem: um mendigo na esquina, um cão vadio que me olha com olhos de eternidade. Pequenos fios que tecem, à revelia do mundo, um tapete espesso de humanidade. E persigo, quase com desespero, as palavras. Busco as melhores, as mais verdadeiras, porque sei — com o corpo todo — que as palavras têm essa faculdade terrível: podem ser bálsamo ou lâmina.

Não fujo. Mergulho de olhos abertos na matéria espessa da dor, na ruga da velhice, no cheiro da pobreza, no grito sufocado da desesperação. É preciso tocar o fundo da lama para que a alma descubra que tem músculos, que tem forças para lutar contra o nada.

Cultivo um rigor feroz. Luto até perder o fôlego, até que o ar falte no peito, vivendo cada dia como se fosse o último estrondo da minha existência. Dou-me inteiro, sem parcimônia, sem calcular os trocos da alma. Desconfio da razão. Ah, essa razão fria, estitica, de passos contados e corações ressequidos. A vida — ah, a vida! — é escandalosamente curta demais para caber em raciocínios.

Recuso-me a apenas boiar na superfície morna dos dias. Prefiro afundar, descer em direção ao silêncio denso, mesmo com o risco tolo de me afogar. Só assim, no escuro das profundezas, é que toco a substância do meu ser. Sorrio dessa nossa humanidade tão atada, tão emaranhada em seus próprios nós, e cedo delicadamente a vez aos árvores. Nelas, absorvo a seiva da calma, a raiz da força.

E assim, renascendo a cada aurora, escolho habitar a autenticidade. Recolho os cacos miúdos de beleza, respiro o bem possível e deixo que a minha alma se alimente, faminta e grata, da grandeza da vida.
❤🙏🏾

© Beatriz Esmer

Arte: Pintura a óleo 90X1.20cm (à venda)

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