Existem, afinal, tantas coisas frágeis. A gente se assusta com a violência do mundo, mas o que espanta mesmo é a facilidade com que tudo se desfaz por dentro. As pessoas quebram tão fácil… como se fossem feitas de um vidro antigo, esquecido no fundo de uma gaveta, que ao menor toque já estilhaça em mil pedaços invisíveis que cortam a gente sem a gente ver.
E não são só os corpos. Os sonhos também. Ah, esses têm uma consistência de fumaça, um sopro bobo e eles se desmancham no ar, deixando aquele gosto de poeira e silêncio na boca. E os corações? Ah, o coração… esse órgão teimoso que insiste em bater, mas que se quebra com um susto, com uma palavra mal dita, com um olhar que desviou na hora exata em que a gente mais precisava de abrigo.
Parece absurdo que algo tão pesado quanto a dor caiba em estruturas tão tênues. A gente caminha pela rua fingindo uma dureza que não tem, equilibrando essa fragilidade toda numa corda bamba, com medo de que o vento sopre forte demais e leve o pouco que sobrou da nossa essência. Ser humano é esse estado permanente de quase-perigo. E, no entanto, é justamente nessa fragilidade inteira que a gente, misteriosamente, continua vivendo.
© Beatriz Esmer
