Quando a morte rouba alguém, sinto o peso frágil do tempo. Para quê tanta pressa em nos afastarmos? Gastamos a vida em desentendimentos mesquinhos, usando as palavras como facas ou armadilhas, esquecendo-nos de que a existência é um sopro.
Confesso: também criei distâncias. Afastei-me por orgulho, por cansaço, por achar que o outro doía demais. Há uma liberdade espinhosa em decidir não perdoar, em deixar ir. Mas a morte chega e transforma tudo em balões perdidos no céu. O vento leva, e já não há braços longos o bastante para alcançá-los.
A nossa janela pode estilhaçar-se a qualquer instante, sem aviso, sem remendo possível. É preciso urgência no afeto. Hoje tentei agarrar um balão que já partira, mas era tarde — o silêncio definitivo havia vencido. A vida é este instante breve. Que saibamos amar antes que o vento leve o que ainda está ao nosso alcance.
© Beatriz Esmer
