O Porto Seguro

Que a alma, essa coisa desatinada que a gente carrega sem saber muito bem o porquê, encontre um amor que seja como uma lareira acesa no meio do mundo. Um calor que nos desmanche por dentro e traga um sossego quase indizível a esta algazarra que é viver. Que haja espantos de alegria bem no meio do nosso tédio cotidiano. Alguém por quem a gente esporeie o tempo, alguém cujo nome, no meio da multidão barulhenta, nos fira como um verso de beleza intocável. Uma música que teima em não calar, o passo certo na dança trôpega dos dias. Ah, … Continue reading O Porto Seguro

O Fio Sutil da Corda Bamba

É espantoso…Esse modo quase sussurrado, quase trêmulo, com que alguns confessam a própria ruína. Dizem que a religião é a coleira, o freio, o único muro que os separa do abismo. E não percebem a confissão terrível que há nisso. É um desabafo involuntário: “Sem os olhos de Deus a vigiar-me do alto, sem a mirra e o chicote do além, eu faria em pedaços o meu irmão”.Meu Deus, que confissão de barbatanas e dentes! Eles chamam isso de piedade. Eu chamo de desespero. Porque a virtude, quando precisa de algemas celestes para existir, deixa de ser virtude — vira … Continue reading O Fio Sutil da Corda Bamba

Dias de Trevas

Hoje eu não quero falar de poesia. Não venha com essa história mofada de ser positiva, não, não! Não quero falar de flores, de pores de sol, de leveza, de ventos que fazem as folhas dançarem ao entardecer. Hoje o dia não tem claridade; tem o peso denso de uma pedra no estômago. Hoje eu quero sangue, grito, rasgar meu próprio peito com as unhas, ver minhas vísceras expostas sobre a mesa fria da cozinha, tentar encontrar dentro de mim — ou nas entranhas do mundo — algo que ajude a entender a imbecilidade humana. Essa coisa opaca, densa, que … Continue reading Dias de Trevas

O Evangelistão do Ódio

Para os porões da memória, a história não pergunta se o crime compensa; ela o exibe na vitrine. Cinquenta e cinco milhões de corações decidiram que o roubo é uma paisagem aceitável, desde que venha acompanhado da bênção certa. Saber que Flávio participou do maior saque aos aposentados, que pisou no suor de quem já trabalhou a vida inteira, não pesa na balança. Saber que ele estende a mão a quem defende o sangue de uma criança também não assusta. Nada disso comove. Na aritmética da sanha, vale mais o ódio de estimação do que a ética do chão. O … Continue reading O Evangelistão do Ódio

Words to keep inside my pocket. Ah, what a strange and heavy pocket I carry within my chest…

Sometimes, the world is too loud, and I find myself becoming quiescent—just a quiet, soft-spoken soul, hiding in the corner of my own existence, breathing softly so as not to disturb the dust motes dancing in the light. Why do we invent things that hurt us? We build chimerical dreams out of thin air, merely imaginary, fanciful little traps that we walk into willingly, just to feel the sting of something unreal. And then, silence falls. No, not silence—a susurrus, a whispering or rustling sound of dry leaves or forgotten secrets brushing against the walls of the mind. Who am … Continue reading Words to keep inside my pocket. Ah, what a strange and heavy pocket I carry within my chest…

Sobre a delicadeza das coisas que sangram lentamente

Desculpe-me se, às vezes, minhas respostas parecem tolas, quase infantilescas na sua urgência de existir. É que eu cansei. Estou terrivelmente entediada com essa arquitetura de mentiras polidas que chamamos de mundo. O falso me pesa como um casaco de chumbo no verão. Mas, se você quiser ver o meu lado sério — aquele que não tem medo do escuro —, se quiser testemunhar meus olhos brilhando com o assombro de quem ainda respira, não me pergunte sobre as coisas úteis. Não me pergunte sobre o lucro, o cálculo ou a eficácia dos dias. Pergunte-me sobre o amor. Pergunte-me sobre … Continue reading Sobre a delicadeza das coisas que sangram lentamente

Reflections on Mortality

Do not weep when I am gone, for I will no longer hear your cries. Even if you scream outside, your despair will be invisible to me. In death, do not seek my forgiveness, for I cannot grant it. Once in the cold drawer, I cannot respond. Do not bring me flowers, for I cannot smell them. The colors do not matter, for I cannot see them. Do not regret in my absence. Do not regret my departure. Let your conscience be at peace, for I will no longer have mine. You cannot change things. You cannot improve the future. … Continue reading Reflections on Mortality

Cleansing the Soul

Amidst the quietude of a sun-dappled morning, I embarked on a peculiar ritual—a cleansing of the intangible. Armed with metaphorical soap and water, I stood at the threshold of my mind, ready to scrub away the residue of yesteryears. First, the dreams. Those fragile, ephemeral things that once clung to my consciousness like morning dew on petals. I lathered them in suds, watching as they dissolved, swirling down the drain. Plans, too—they slipped through my fingers, leaving only a faint scent of possibility. Next, memories. Some were like old photographs, sepia-toned and faded, while others were vivid and sharp, capable … Continue reading Cleansing the Soul

A Mesa Inegociável

Não me associo com fascistas, com bolsonaristas, com homofóbicos, xenofóbicos e sionistas. A barreira está posta na fronteira da dignidade humana, onde não cabe negociação com o retrocesso, com o ódio institucionalizado ou com a apuração da violência contra o outro. Não me sento à mesa com quem não gosta de compartilhar, quem não acredita na caridade, quem não alimenta o outro, seja com gentileza, compaixão e esperança ou com o pão de cada dia. A vida coletiva exige comunhão; mesa farta é mesa dividida, e quem guarda para si o sustento ou nega o afeto empobrece a alma de … Continue reading A Mesa Inegociável

Dias melhores…

Tentei conter-me nos momentos de tristeza, mesmo que as lágrimas tenham banhado meu rosto. Tentei não deixar aflorar as amarguras sofridas. Busquei não ser amparada, para reerguer-me com o resto de força que ainda existia em mim. Cedi a alguns caprichos, comprei alguma coisa supérflua para tentar fugir de mim mesma. Agarrei-me a alguns sonhos, mesmo que não os tenha realizado. Tentei equilibrar minhas razões e emoções, mesmo que não tenha conseguido. Enganei-me mais uma vez, porque achei que havia encontrado a pessoa certa. Busquei e muito a esperança, mesmo com os olhos turvos. Levei a verdade para alguns recantos, … Continue reading Dias melhores…