Sob a Imensidão do Cosmo

Sinto uma paralisia sutil, quase dócil, diante deste céu imenso e do ar que gela a pele por dentro. Você se lembrará de mim? Do meu pequeno tudo diante da vastidão muda do cosmos? O que escreverás sobre o meu corpo, quais são os desenhos que as nossas imaginações traçam na carne, quais constelações inventamos para não sentirmos tanto frio? Andamos sem rumo pelas estradas de terra em busca daquilo que chamamos de identidade — talvez seja aí, nesse passo incerto, que o seu caminho cruze o meu. Mas a vida não se sustenta de “talvezes”. Não há substância alguma … Continue reading Sob a Imensidão do Cosmo

Les échos du premier rendez-vous

Il pleuvait ce jour-là sur Paris, une pluie fine et complice qui collait les mèches rebelles de mes quinze ans au front. J’avais les genoux marqués par les trottoirs de mon enfance et le cœur entièrement blanc, vierge de toute tempête. C’était le temps des premières peines, celles qui font trembler les mains et retenir son souffle. Du plus loin, que me revienne l’ombre de mes amours anciennes… En y repensant, j’ai le sourire aux lèvres. Était-ce de tendres amours de gosse, des bluettes d’enfants précoces, ou déjà la morsure féroce d’un amour fou ? Difficile de démêler le vrai … Continue reading Les échos du premier rendez-vous

Poeta Torta

Versava ela sobre verdades esquecidas pelo próprio coração — aquele que, em dias passados, inspirava perfumes.Desejava a salvação do outro, mesmo sendo ela quem se perdia.Secava lágrimas com palavras no rosto alheio, enquanto se afogava nas próprias. Contou tantas histórias a si mesma que se perdeu no enredo.Salvou finais de muitos mocinhos, embora se sentisse a vilã torpe. Fez-se poeta, enfeitada de ilusões, já incapaz de distinguir os carnavais de fantasia dos dias de branco.Pelos contos falsos e estórias mal contadas, azedou narrativas e feriu com rimas. Agora, passeia de mãos dadas com a tristeza, atendendo aos seus caprichos como … Continue reading Poeta Torta

A Alquimia das Palavras e dos Sentimentos

Havia um rio preso no peito, não de água parada, mas de correnteza espessa, daquelas que arrastam o que encontram pela frente feito uma pororoca. Escrevia. Escrevia não para se aliviar, como quem se livra de um peso inútil, mas para sustentar a dor com uma esperança quase cega. Ela sabia, com um instinto ancestral e doloroso, que a angústia não se mata. Matá-la seria extinguir o sinal vital, a rota secreta que nos salva e nos arremessa num voo ontológico. O sofrimento era a prova irrevogável de que se estava viva. Enfeitiçada pelas palavras, essas criaturas vivas que mordem … Continue reading A Alquimia das Palavras e dos Sentimentos

A Tristeza é uma Filha Caprichosa

“Ela navegava as profundezas de suas próprias verdades esquecidas…” Há algo de insuportavelmente delicado em se perder dos próprios passos. Ela, que sempre buscou a salvação alheia como quem busca a respiração, encontrou-se enredada no labirinto de si mesma. Suas mãos, aquelas mesmas mãos generosas, prontas a enxugar o pranto do mundo com palavras doces, eram incapazes de conter o oceano particular que a submergia. Era um afogamento silencioso, daqueles que acontecem no meio da sala, enquanto o resto do mundo aplaude a leveza de quem finge estar inteiro. Nos labirintos de suas próprias histórias, ela se extraviava. Tecia tramas … Continue reading A Tristeza é uma Filha Caprichosa

A Pele e o Espanto que Habita em Mim

Às vezes, eu mesma me assusto. Tento levantar a ponta da minha pele como quem levanta o lençol de uma cama desfeita, só para expor os nós cegos, a dor que lateja no fundo e as histórias emaranhadas que habitam ali embaixo. Mostro isso tudo, crua e vulnerável, quase suplicando por um pouco de compreensão, por um fio de conexão verdadeira. Mas o que encontro é o silêncio, o desdém, o vento frio de quem acha que a minha dor é pouca coisa, um detalhe irrelevante na paisagem. Eu juro que tento. Contenho minhas expectativas com uma mão firme, blindo-me … Continue reading A Pele e o Espanto que Habita em Mim

A Matéria do Vazio

Faço a concha com as mãos e aperto o nada. É pesado, espesso, quase palpável. Deixo que esse vazio escoe para dentro de mim, que se infiltre nas frestas da alma até que eu mesma não saiba onde termino e o abismo começa. Caio. Caio com uma graça súbita, desajeitada e mansa, deixando que essa ausência me amasse e me modele como o barro úmido nas mãos cegas de um artista. A gente cresce quando aceita o peso exato do que somos. Olho para a maciez do meu ventre, para essa carcaça frágil e morna que abriga o meu espírito, … Continue reading A Matéria do Vazio

A Jornada do Coração

Eu perdi meu coração, você o viu? Talvez ele esteja vagando pela terra da fome, onde os sonhos são escassos e a esperança é um fio tênue. Ou quem sabe ele se perdeu nos desertos infinitos, onde o silêncio é a única companhia e o horizonte parece inalcançável. Pode ser que meu coração esteja batendo no seio da liberdade, galopando sobre colinas verdes e vastas, sentindo o vento da emancipação. Ou talvez ele esteja escondido nos baús do luto, onde a dor é profunda e a tristeza é a única amiga fiel. Meu coração, onde quer que esteja, carrega consigo … Continue reading A Jornada do Coração

O Preço da Liberdade

O feminismo incomoda mais que o feminicídio, porque eles se incomodam mais com mulheres livres do que com mulheres mortas. Essa inversão macabra de prioridades revela a engrenagem oculta de uma sociedade que tolera a tragédia do silenciamento definitivo, desde que a ordem patriarcal e o controle sobre os corpos femininos permaneçam intactos. Enquanto o assassinato de mulheres é tratado com frequência como dano colateral, tragédia passional ou mera estatística fria, a emancipação feminina soa como um alarme ensurdecedor para estruturas arcaicas de poder. Afinal, a morte silencia, mas a liberdade exige respostas, confronta privilégios e escancara a fragilidade daqueles … Continue reading O Preço da Liberdade

Mirror

It is strange how a mirror can become a judge. Not a cruel one, perhaps, but a persistent one. Every morning, before the world demands its pieces of me, I stand before the glass and ask the silent, terrifying question: If today were the last day of my life, would I want to do what I am about to do today? And when the answer is a heavy, lingering No—stretching across days like an unmade bed—I know. I know that something inside me is quietly dying of routine. We spend our lives dressing up our cages, polishing the bars so … Continue reading Mirror