Sinto uma paralisia sutil, quase dócil, diante deste céu imenso e do ar que gela a pele por dentro. Você se lembrará de mim? Do meu pequeno tudo diante da vastidão muda do cosmos? O que escreverás sobre o meu corpo, quais são os desenhos que as nossas imaginações traçam na carne, quais constelações inventamos para não sentirmos tanto frio?
Andamos sem rumo pelas estradas de terra em busca daquilo que chamamos de identidade — talvez seja aí, nesse passo incerto, que o seu caminho cruze o meu. Mas a vida não se sustenta de “talvezes”. Não há substância alguma em mudar o peso dos ombros apenas para sustentar o fardo de ser.
Empreste-me a sua dor. Vamos misturá-la, crescer asas de repente, partir no instante exato em que a lua decide subir. Vamos aprender, enfim, o ritmo secreto e a melodia áspera desta terra, até que a nossa verdade apareça, nua e espantada. Não é para isso, no fundo, que existimos?
© Beatriz Esmer
Arte: Mineira — Pintura acrílica 60X85cm — À venda
