O Preço da Liberdade

O feminismo incomoda mais que o feminicídio, porque eles se incomodam mais com mulheres livres do que com mulheres mortas. Essa inversão macabra de prioridades revela a engrenagem oculta de uma sociedade que tolera a tragédia do silenciamento definitivo, desde que a ordem patriarcal e o controle sobre os corpos femininos permaneçam intactos. Enquanto o assassinato de mulheres é tratado com frequência como dano colateral, tragédia passional ou mera estatística fria, a emancipação feminina soa como um alarme ensurdecedor para estruturas arcaicas de poder. Afinal, a morte silencia, mas a liberdade exige respostas, confronta privilégios e escancara a fragilidade daqueles que preferem a subserviência tumular à autonomia altiva.

Diante desse espelho incômodo, a revolta contra o movimento feminista escancara o medo profundo da perda de domínio. O sistema não chora as que se vão porque, no fundo, uma mulher morta ainda cabe na narrativa trágica de posse, ao passo que uma mulher livre rompe o roteiro, desobedece às regras e decide o próprio destino. É por isso que gritos por igualdade e autonomia geram tanta sanha punitiva e reações desproporcionais, enquanto a barbárie do feminicídio muitas vezes encontra leniência na apatia institucional e social. No fim das contas, o incômodo com a voz e com os passos soltos da mulher moderna prova que o que realmente aterroriza o machismo não é a ausência dela na vida, mas sim a sua recusa absoluta em continuar subjugada.

©️ Beatriz Esmer

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