“Ela navegava as profundezas de suas próprias verdades esquecidas…”
Há algo de insuportavelmente delicado em se perder dos próprios passos. Ela, que sempre buscou a salvação alheia como quem busca a respiração, encontrou-se enredada no labirinto de si mesma. Suas mãos, aquelas mesmas mãos generosas, prontas a enxugar o pranto do mundo com palavras doces, eram incapazes de conter o oceano particular que a submergia. Era um afogamento silencioso, daqueles que acontecem no meio da sala, enquanto o resto do mundo aplaude a leveza de quem finge estar inteiro.
Nos labirintos de suas próprias histórias, ela se extraviava. Tecia tramas intrincadas onde salvava heróis, mas, num espanto doloroso, via a si mesma como a vilã da própria tragédia. Tornou-se poeta por desespero e graça. Enfeitou-se de ilusões, incapaz de separar o carnaval febril de suas fantasias dos dias brancos, estéreis e cruéis da realidade. As falsas narrativas do passado azedaram o seu cotidiano; e as rimas, que outrora descia doces como azeite, agora cortavam a pele por dentro. Caminhava de mãos dadas com a tristeza, tratando-a quase com a indulência de uma filha caprichosa — exigente, teimosa, mas sua única companhia constante.
Chorava nas cartas. Sentia a dor exata nas entrelinhas, como se a tinta sangrasse. O lápis, desgastado como uma roupa velha, oferecia apenas retalhos de detalhes belos, migalhas de uma beleza que ela distribuía aos outros, negando-a a si mesma. Encontrou vitória e lirismo em tudo e em todos, menos na própria carne. Culpou o céu, a terra e os espinhos. Perdeu o guia, esqueceu o mapa, queimou o manual de instruções do bem-viver. Para ela, a palavra “recomeço” não passava de um termo árido impresso no dicionário.
E então, solitária como um astronauta à deriva, contemplava o medo entre as estrelas, gritando por um socorro que se perdia no vácuo. Nos seus textos, tirava a sorte grande ou trágica, decidindo quem sorriria e quem choraria; mas, para si, reservara a lágrima como marca registrada. Exigia da vida um perdão sem ter o saldo correspondente. Já sem saber o próprio valor, contentava-se em não sair no prejuízo, desejando apenas migalhas de alegria diária entre um soluço e outro. Queria renascer na sua eterna poesia, afinal — e nisso ela se agarrava como a um último fio de fé —, um espinho jamais fere verdadeiramente uma flor. 😔
© Beatriz Esmer
