Havia um rio preso no peito, não de água parada, mas de correnteza espessa, daquelas que arrastam o que encontram pela frente feito uma pororoca. Escrevia. Escrevia não para se aliviar, como quem se livra de um peso inútil, mas para sustentar a dor com uma esperança quase cega. Ela sabia, com um instinto ancestral e doloroso, que a angústia não se mata. Matá-la seria extinguir o sinal vital, a rota secreta que nos salva e nos arremessa num voo ontológico. O sofrimento era a prova irrevogável de que se estava viva.
Enfeitiçada pelas palavras, essas criaturas vivas que mordem e afagam, ela sabia tatear a diferença sutil entre as duras e as macias. Usava-as como quem esvazia uma alma incendiada, transformando o incêndio em beleza.
No fundo, seu vício secreto, seu passatempo inegociável, era o ato brutal de sentir. Enquanto o mundo lá fora se corrompia na pressa de comprar, de consumir a superfície das coisas, ela afundava em si mesma. Afogava-se de propósito na sensação. Revirava a terra batida do passado, conversava com os fantasmas que teimavam em morar na sala e olhava de frente os monstros subterrâneos. E era justamente essa fantasia febril que a protegia da loucura, abrigando-se em histórias onde o vivido ainda pulsava, denso e saboroso.
Maria via o indizível pulsar nas coisas mínimas, até no fundo gasto de uma panela de ferro. Cozinhar não era o ato banal de misturar mantimentos; era a feitura do sentido. Ela mergulhava os sentimentos na mesma água onde afogava as palavras, temperando ressentimentos antigos junto ao sal da carne. Marinava a própria consciência, deixava o perdão apurar no fogo brando. A história que ensaiava contar ao mundo era tecida nas brasas: um fogo que ardia sem consumir, uma emoção que feria e, ao mesmo tempo, tocava um pedaço do céu.
Até que, de súbito, acontecia. O encontro da mulher com a sua verdade nua, vestida apenas com a palavra exata. Era a epifania, a alegria que rebentava exuberante, quase insuportável. Naquele instante, o mundo inteiro se iluminava por dentro, como se uma lâmpada escondida fosse acesa no centro do caos, e ela repousava, finalmente em paz, guiada pelo pulso firme do que sentia e dizia.
© Beatriz Esmer
