Às vezes, eu mesma me assusto. Tento levantar a ponta da minha pele como quem levanta o lençol de uma cama desfeita, só para expor os nós cegos, a dor que lateja no fundo e as histórias emaranhadas que habitam ali embaixo. Mostro isso tudo, crua e vulnerável, quase suplicando por um pouco de compreensão, por um fio de conexão verdadeira. Mas o que encontro é o silêncio, o desdém, o vento frio de quem acha que a minha dor é pouca coisa, um detalhe irrelevante na paisagem.
Eu juro que tento. Contenho minhas expectativas com uma mão firme, blindo-me contra a queda previsível que nasce de esperar demais dos outros. Contudo, a desfeita sempre dá um jeito de escorregar para dentro do meu peito. Os outros falham na empatia que eu tanto ouso desejar. E é aí, nessa falha alheia, que esbarro no meu próprio reflexo: eu também me desaponto comigo mesma. Por ter acreditado, por ter tido a audácia de esperar, por esse anseio insistente de que a vida seja um pouco mais do que isso.
É um instante frágil. A carne treme, a esperança recua, e o que sobra é a constatação de que nos conectamos por fios de arame farpado.
Ainda assim, há uma força teimosa que insiste em continuar. Continuo levantando essa ponta de pele, mesmo sabendo que vai doer, mesmo quando tudo parece inútil. É nessa dança delicada — entre a ilusão que insiste em nascer e a desilusão que nos corta — que eu sigo, tateando no escuro, tentando decifrar o enigma pesado de existir.
© Beatriz Esmer
