A Matéria do Vazio

Faço a concha com as mãos e aperto o nada. É pesado, espesso, quase palpável. Deixo que esse vazio escoe para dentro de mim, que se infiltre nas frestas da alma até que eu mesma não saiba onde termino e o abismo começa. Caio. Caio com uma graça súbita, desajeitada e mansa, deixando que essa ausência me amasse e me modele como o barro úmido nas mãos cegas de um artista.

A gente cresce quando aceita o peso exato do que somos. Olho para a maciez do meu ventre, para essa carcaça frágil e morna que abriga o meu espírito, e encontro paz. Enfeito-me de sentimentos antigos; são as minhas tatuagens invisíveis. Toco a casca áspera da árvore na calçada e sinto o gosto da resina e da resistência. Queimo o incenso não por ritual, mas para lembrar dos que partem, dos que amei com espanto, e daquela criança assustada que um dia fui e que ainda respira aqui dentro.

De repente, a emoção transborda. Tremo. O corpo inteiro treme diante da intensidade de existir. Mas há um instante de suspensão — o silêncio que precede o grito. Piro o ar, respiro fundo, desmancho o meu avesso. Desato os nós mais íntimos para tecer uma essência intocável, protegida da sanha do mundo.

Saio. Fico no cruzamento exato dos meus dias, oferecendo o que tenho de mais vivo ao vasto mistério. O que sobra — essas pedrinhas miúdas de passado — eu arremesso na superfície do lago. Vejo-as quicar, perder o fôlego e afundar devagar, num silêncio macio.

Levanto-me. Dou as costas. Não olho para trás. Apenas sigo, com o peito incendiado de luz e o passo livre, enfim desatada de mim mesma.

© Beatriz Esmer

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