Versava ela sobre verdades esquecidas pelo próprio coração — aquele que, em dias passados, inspirava perfumes.
Desejava a salvação do outro, mesmo sendo ela quem se perdia.
Secava lágrimas com palavras no rosto alheio, enquanto se afogava nas próprias.
Contou tantas histórias a si mesma que se perdeu no enredo.
Salvou finais de muitos mocinhos, embora se sentisse a vilã torpe.
Fez-se poeta, enfeitada de ilusões, já incapaz de distinguir os carnavais de fantasia dos dias de branco.
Pelos contos falsos e estórias mal contadas, azedou narrativas e feriu com rimas.
Agora, passeia de mãos dadas com a tristeza, atendendo aos seus caprichos como se fosse filha sua.
Chora nas letras, dói-se nas linhas.
Seu lápis, veste rasgada, oferecia trapos bordados de beleza.
Encontrava vitória e lirismo em qualquer um — menos dentro do próprio peito.
Culpava o céu, a terra e os espinhos pelos desencontros.
Perdeu o guia, esqueceu o mapa.
Queimou o manual do bem-estar.
Renascer virou apenas verbete de dicionário.
Astronauta solitária, contemplava o medo entre as estrelas,
gritando no vácuo do vazio por resgate.
Sorteava nos textos quem sorriria, quem choraria —
e, no seu caso, a lágrima era sempre o grifo.
Cobrava perdão da vida sem saldo pra isso.
E, sem saber mais qual era seu valor,
esperava apenas não levar o troco.
Esperava alegrias cotidianas entre um soluço e outro,
renascer em sua eterna poesia —
porque espinho não machuca flor… ❤
©️ Beatriz Esmer
