Permita-me. É um pedido que faço não a você, mas ao próprio tempo: permita-me ser quem eu preciso ser. Não quem o mundo projeta na parede branca da expectativa, mas a criatura que range e respira aqui dentro. Sinto o peso dos meus anos e, pela primeira vez, não quero sacudi-los. Deixe-me sentir a minha idade. Há uma dignidade quase animal em envelhecer, um rito de passagem que não aceita disfarces.
Quero habitar a minha própria história. A juventude… ah, a juventude é reluzente, eu sei. É toda feita de superfícies polidas e brilhos que cegam. A juventude é linda e brilhante, mas é apenas uma parte, e nunca a totalidade de quem sou. Ser jovem é uma promessa; ser o que sou agora é o cumprimento, por vezes amargo, mas absoluto.
Eu vi um mundo que já não existe. Vi cidades que se desmancharam, rostos que o tempo devorou, e guardo tudo isso em silêncio. Experiência, música e eventos: são esses os ingredientes da vida que eu exijo ter. Não são memórias para um álbum, são a minha própria carne.
Não me peça para ser um reflexo. Não sou imagem, nem visão. Se o que você procura é a perfeição estática de um quadro, afaste o olhar. Eu posso não ser o que você deseja ver, pois não me ofereço ao consumo dos olhos alheios. Sou apenas eu, este ser que acorda e se reconhece nos fios de prata, neste meu eu grisalho e antigo, que finalmente aprendeu que existir é mais importante do que parecer.
Estou viva. E isso, no fundo, é um mistério assustador e sagrado.
©️ Beatriz Esmer
