Às vezes, o que importa não é a construção de uma catedral, mas o susto de ver o vazio. É que nem tudo foi feito para ser estátua de mármore, fria e eterna. Existem certas coisas, e certas pessoas, que chegam como um relâmpago: iluminam a sala inteira por um segundo, mostram onde os móveis estão fora do lugar, e depois nos deixam de novo no escuro. Mas agora, ah, agora a gente já sabe onde está a porta.
Eu olho para o outro e sinto esse cansaço bom de quem desiste de prender o vento. Not everything is supposed to become something beautiful and long-lasting. Há beleza no que é breve, no que se desmancha entre os dedos como um bicho-da-seda que cumpre seu destino e morre.
Algumas pessoas vêm apenas para nos dar o espelho. Elas chegam para nos mostrar o que é certo e o que é errado, mas não como lição de escola, e sim como um corte na pele que nos revela o sangue pulsando. Elas nos ensinam quem podemos ser, essa pessoa vasta, perigosa e livre que escondemos atrás do café da manhã. Ensinam a gente a se amar, não com adoração, mas com a aceitação de quem olha para a própria imperfeição e diz: “Sim, sou eu”.
E há aqueles que vêm apenas para o milagre do conforto momentâneo. To make you feel better for a little while. Um colo que dura dez minutos, mas que vale por dez anos de solidão. Ou alguém para caminhar no silêncio da noite e, sob a luz dos postes, despejar a vida inteira como quem entorna um cálice de vinho barato no chão. Falar por falar, ser por ser.
A verdade é que nem todo mundo vai ficar para o café da manhã. Not everyone is going to stay forever. E isso não é uma tragédia; é a própria vida acontecendo na sua forma mais crua. Temos que continuar caminhando, carregando o peso e a leveza do que foi vivido. E, no silêncio que sobra depois que eles partem, dizer um “obrigado” mudo. Agradecer pelo que foi dado, mesmo que tenha sido apenas um olhar que nos lembrou que ainda estamos vivos.
Viver é isso: um susto entre duas esperas.
©️ Beatriz Esmer
