Tropeços

A vida, tão frágil e efêmera, nos faz questionar as escolhas que fazemos para preservá-la. Em nossa busca por proteção, muitas vezes nos esquivamos de viver plenamente, receosos do desconhecido e das incertezas que permeiam nossa existência. Mas qual o sentido de evitar aquilo que não compreendemos, de nos esquivarmos do que não podemos controlar?

Insistimos em nos perder na teia do que não pode ser mudado, afundando-nos em tristezas, em cacos, nos escuros e nas tempestades que assolam nossa alma. Por que nos agarramos com tanta força a tudo aquilo que nos faz sofrer, em vez de buscar a luz que nos guia para fora da casca perene em que nos aprisionamos?

O amor escapa de nossas mãos como quem perde o ônibus, e aguardamos por ele como quem espera o trem, como se o tempo fosse o único senhor de nossas urgências. Nossas insônias refletem a inquietude de nossas almas, a busca incessante por algo que preencha o vazio que nos consome.

Mas o que nos dói, o que verdadeiramente nos corrói, é aquilo que insistimos em engolir sem questionar, aquilo que mastigamos a cego, sem nos darmos conta do veneno que nos alimenta.

E assim, nos apegamos com fervor à nossa própria verdade, recusando-nos a aceitar qualquer desaforo que contradiga nossa visão de mundo. Cremos tanto em nossa própria narrativa que nos recusamos a enxergar além das fronteiras estreitas que impomos a nós mesmos.

Talvez seja hora de desaprender a nos proteger tanto, de nos despir das armaduras que nos aprisionam e nos impedem de viver com plenitude. Talvez seja hora de aceitar as incertezas, de abraçar o desconhecido e de permitir que a vida nos surpreenda, mesmo que isso signifique abandonar a segurança das certezas de que tanto nos apegamos.

Pois, afinal, a vida é feita de riscos, de quedas e de recomeços. E é somente ao nos permitirmos viver de forma autêntica e desprotegida que podemos encontrar a verdadeira essência da existência.

Copyright © Beatriz Esmer

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