Esta é a história da mulher que restou depois do fim. Uma mulher que morreu sem morrer, depois que o amor se foi e, junto, levou a vida, deixando-a na miséria do existir. Quando ninguém mais permaneceu, sobrou-lhe a convivência com os abandonos. Depois do amor, deixou de pertencer a lugar algum; não houve terra nem mar, servindo-lhe o céu apenas para doer nas noites, quando a tristeza se escuta melhor. Depois do fim, calam-se os ventos. Depois do fim, não há caminhos de volta, apenas um único momento sem princípio nem final, sem alívio, nem mesmo para os horizontes.
Depois do amor, nada mais nasce ou cresce. Depois do fim, tudo é e continua sendo, ainda que nada mais seja. Depois do amor, qualquer coisa era equívoco ou cansaço, numa vertiginosa queda em si mesma. Depois do fim, o tempo desapareceu, e sua tristeza tornou-se um para sempre; sua saudade, uma imensidão. O tempo poderia engolir a luz e a fé, pois cedo ou tarde regurgitaria ambas ainda vivas, mas não. A dor era tanta que o tempo se dissolveu e, a partir do que se acabou, nada mais aconteceu, nem a lucidez, nem o sonhar. O que se movia girava lento e atordoado, como o mundo e seus pés. Sobraram-lhe apenas tortos e secretos caminhos, levando-a a qualquer desilusão.
Depois do fim, engasgava-se facilmente com qualquer recente esperança, como densa fumaça irritante. Depois do amor, aprendeu que a solidão mede apenas distâncias e desistências, enquanto aprendemos nós a reunir ásperos silêncios que acompanham nossas palavras. Depois de tudo, restou-lhe um nada a ecoar dentro do peito, se é que havia peito depois de tanto. Tornou-se enamorada dos olhares distantes e perdidos, e das inclinações para o pessimismo. Depois do fim, do tempo e do amor, só lhe restou a poesia. ❤️❣️🇧🇷
©️ Beatriz Esmer
