Crônica: O dia em que Jesus voltou

Não houve trombetas. Nenhum céu rasgado por cavalos alados, nem multidões ajoelhadas em êxtase. Ninguém escreveu manchetes: “Ele voltou.” E, no entanto, voltou.

Chegou com a barba por fazer, a roupa gasta, o sotaque estranho. Trazia nos olhos uma mansidão incômoda e nos ombros o peso de séculos de espera. Pediu pão. Pediu abrigo. Pediu apenas o que qualquer um pediria após uma longa jornada atravessando desertos — não os da Bíblia, mas os do mundo moderno, de fronteiras e papéis exigidos em nome da ordem.

Mas aqueles que mais falavam Dele foram os primeiros a desviar o olhar. Estavam ocupados demais decorando versículos para notar que o verbo havia se feito carne de novo — e estava com fome. Preferiram não se envolver. “Não temos estrutura.” “Não podemos alimentar todos.” “Vai contra as diretrizes da segurança nacional.” E quando Ele insistiu, foi algemado. Prenderam-no por desacato. Deportaram-no por não ter documentos válidos.

Na cela, uma câmera de segurança o filmou dividindo seu único pedaço de pão. O vídeo circulou nas redes sociais por algumas horas, até ser removido por “conteúdo sensível”.

Os que o esperavam continuam esperando. Olham para o céu em busca de luzes apocalípticas, sem notar que a luz verdadeira, às vezes, brilha nos olhos cansados de um estranho. E que talvez, Ele já tenha voltado. Só que não o reconheceram.
😔

©️ Beatriz Esmer

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