Relógio

Carrego em mim um tempo que não passa, uma espera que não cessa, como se o relógio tivesse desaprendido a mover os ponteiros. Sou o intervalo entre o gesto e o arrependimento, entre o toque e a ausência. Não falo, não por medo, mas porque cada palavra seria um erro a mais no mapa já torto da minha memória.

Sou o eco de um nome que ninguém mais chama, o vulto que atravessa a sala quando a luz se apaga. Sou o que resta quando o amor se retira — não a ausência dele, mas o espaço deformado por sua partida.

Fui jardim, sim, mas de flores que nunca souberam florir. Agora sou terra que se recusa a esquecer o perfume do que não nasceu.

No silêncio, aprendi a escutar o que o mundo grita quando finge estar calado. Aprendi que há dores que não pedem cura, apenas um canto onde possam existir sem serem expulsas.

Sou a página que não foi escrita porque o escritor chorou antes de começar. Sou o suspiro que antecede o adeus que nunca foi dito.

E se me perguntarem quem sou, direi apenas: sou o que sobra quando tudo o que era já não é. Sou o silêncio depois do fim, esperando que alguém, um dia, tenha coragem de recomeçar. 😔

©️ Beatriz Esmer

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