Presságios

Disseram-me os espíritos que me cuidasse. Uma preta velha, num terreiro, anos atrás.
A luz que atravessou a janela do quarto, hoje pela manhã, trouxe de volta a preocupação.
Cuidar-me — como?
Poderia adoecer, perder-me no caminho, perder o amor da minha vida que nunca tive, ser despejada. A lista seria infindável, caso me pusesse a escrevê-la.
O que gostariam que eu soubesse?
Não creio que receberia uma notícia fatalista, sem chances de alterar minha rota de colisão com o que quer que fosse.
De nada serviriam as previsões e os profetas, senão para angustiar-nos diante do inevitável. Deus seria um sádico a adiantar-nos capítulos inescapáveis.
Ou talvez fosse exatamente isso — mas um convite oferecido, não por um Deus de humor duvidoso, e sim por estrita compaixão.
O convite estaria um pouco além dos avisos e das notícias.
Um convite de nitidez apagada pelo medo e pela ansiedade.
O convite seria a entrega.
A prescrição dos mensageiros seria para que eu venha a me cuidar pelo cultivo da fé.
O conselho dado revela-se maior: aceitar o vento e as marés; perder a tolice de querer controlar o que não me é possível; compreender que as tempestades são passageiras — e manter-me em equilíbrio diante dos fatos.

Saravá! ❤️

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