Era uma manhã qualquer, dessas em que o café esfria antes do primeiro gole e o relógio parece zombar da pressa. Dona Lúcia, viúva há mais de uma década, observava pela janela o ipê amarelo da praça. Todo ano, ele florescia como se nada tivesse mudado. Mas tudo mudara.
Ela costumava dizer que a vida era feita de pequenas posses: o marido, os filhos, a casa, o jardim. Cada coisa com seu lugar, cada afeto com seu nome. Até que, um por um, os pertences da alma começaram a escorregar pelos dedos. O marido se foi, os filhos se mudaram, a casa ficou grande demais para os silêncios. E o jardim… bem, o jardim agora era só mato e lembrança.
Foi numa dessas manhãs que ela leu, num livro esquecido na estante:
“El miedo nace del apego: temes perder porque crees poseer…”
A frase ficou ecoando como um sino distante. Ela repetiu em voz baixa, como quem mastiga uma verdade amarga. Nada é seu, nem o que ama, nem o que odeia. O mundo não lhe deve nada. E ela, com suas mãos frágeis, não podia segurar o tempo.
Mas havia algo que ninguém lhe tirara. Algo que caminhava com ela desde menina: sua gentileza. A forma como oferecia chá mesmo quando não esperava visitas. O cuidado com que dobrava os lençóis, como se fossem cartas de amor. A paciência com que escutava os lamentos alheios, mesmo quando os seus eram mais profundos.
Essa era sua terra firme. Sua virtude. O único terreno que resistia às chuvas da perda.
Naquela manhã, ela sorriu para o ipê. Não porque ele era seu, mas porque florescia. E isso bastava.
Porque no fim, o que nos acompanha até o último alento não é o que temos, mas o que somos. 🙏🏾❤️🌿🌻
©️ Beatriz Esmer
