Domingo Não Se Toca

Domingo tem cheiro de café coado com calma. Tem o sol entrando pela fresta da cortina como quem pede licença para iluminar sem pressa. É o dia em que o mundo parece suspenso, como se o tempo tivesse tirado folga e deixado a gente brincar de esquecer.

Hoje é domingo, e eu decidi que não vou sofrer. Não por teimosia, mas por escolha. A tristeza bateu à porta cedo, como sempre faz, mas encontrou um bilhete colado na maçaneta: “Volte amanhã.” Saudade tentou se esgueirar pela janela, mas eu já tinha fechado todas. Domingo não é dia de visita indesejada.

O amor, esse danado, resolveu fazer as malas. Disse que ia embora. Eu olhei, dei um sorriso e respondi: “Se for pra ir, que seja hoje.” Porque no domingo, até o abandono tem poesia. Ficar só, nesse dia, é quase um privilégio. A casa silenciosa vira palco, e eu sou a trapezista do meu próprio espetáculo. Equilibro-me entre lembranças e planos, sem rede de proteção, mas com a leveza de quem sabe que não vai cair.

Domingo é o circo da alma. Os dramas ficam de folga, os medos tiram férias, e a dor… ah, a dor! Essa eu mandei embora com um aviso firme: “Não insista.” Hoje, sou feita de risos soltos, de passos lentos, de música baixa e de roupa confortável. Sou má companhia para quem quer chorar, excelente para quem quer apenas existir.

Se amanhã a saudade voltar, que volte. Se o amor quiser reaparecer, que apareça. Mas hoje, meu bem, é domingo. E domingo, eu sou de paz. ❤️🙏🏾

©️ Beatriz Esmer

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