O homem se orgulha de saber dividir o átomo. E com razão: não é pouca coisa. A ciência avançou tanto que hoje podemos manipular partículas invisíveis, decifrar o DNA, enviar sondas para além de Plutão. Somos gênios da técnica, mestres da engenharia, deuses da lógica. Mas, diante de um pão, ainda tropeçamos.
Dividir o átomo exige precisão. Dividir o pão exige compaixão. E é aí que o sistema falha — não por falta de inteligência, mas por falta de sensibilidade.
Vivemos em um mundo onde há mais comida do que bocas, mais casas do que corpos, mais palavras do que escuta. Mas o sistema, esse grande organismo invisível que rege nossas vidas, parece ter aprendido a multiplicar lucros, não solidariedade. Ele sabe calcular juros, mas não sabe medir fome. Sabe prever inflação, mas não prevê o frio de quem dorme na calçada.
O homem moderno constrói foguetes, mas não pontes entre classes para diminuir as dificuldades. Ele investe em inteligência artificial, mas ignora a inteligência emocional. E enquanto isso, o pão — esse símbolo ancestral de partilha — vira produto, vira privilégio, vira exceção.
A divisão do átomo nos deu energia. A divisão do pão nos daria humanidade. Mas o sistema, cego por sua própria eficiência, prefere o brilho das máquinas ao calor do afeto. E assim seguimos: tecnologicamente avançados, socialmente atrasados.
Talvez um dia, quando o orgulho ceder espaço à empatia, o homem aprenda que o verdadeiro progresso não está em dividir o invisível, mas em compartilhar o essencial. 😔
©️ Beatriz Esmer
