Crônica: O Homem que Fugiu de Si

Preenchia-se de vazios como quem tenta calar o eco de uma ausência. Era a falta que lhe oprimia o peito, uma ausência sem nome, sem rosto, mas com peso. Acompanhava-o como sombra, agravando-se durante as noites, quando o silêncio da cidade não conseguia abafar o barulho interno.

Vivia para esquecer-se. Corria para evitar-se. O elevador vazio, o escritório cheio, a academia, o engarrafamento, as ansiedades, o almoço, o jantar, o medo e o olhar distante — tudo expediente para jamais encontrar-se consigo. Era um mestre em escapar, um fugitivo de si mesmo, urbano e solitário na selva de concreto.

E se, por um descuido, cruzasse com o próprio reflexo? O que diria a si caso pudesse? Qual verdade esfregaria na própria cara? Qual tristeza escolheria para poder chorar? Talvez dissesse que não sabia amar, ou que afastava o amor quando o amor o escolhia. E talvez fosse este seu grande mal. Apenas não maior do que não perceber que era exatamente disto que sofria.

A cidade não o via. Ele também não via a cidade. Caminhava entre prédios como quem atravessa labirintos, desviando de sentimentos, de lembranças, de qualquer coisa que pudesse fazê-lo parar. Porque parar significava sentir. E sentir era perigoso.

No fundo, desejava um abraço. Mas não sabia como pedir. Desejava ser encontrado, mas escondia-se com maestria. Era um homem em guerra com a própria alma, disfarçado de executivo, de atleta, de cidadão exemplar. Um homem que, todos os dias, morria um pouco — não por falta de vida, mas por excesso de fuga.

E assim seguia, preenchendo-se de vazios, colecionando ausências, acumulando silêncios. Até que, quem sabe, um dia, o amor o alcançasse de novo. E ele, cansado de correr, finalmente parasse.

©️Beatriz Esmer

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