O coração, esse sótão cheio de guardados, não quer saber de baús pesados. Ele gosta é das coisinhas de nada: um “eu te amo” dito baixinho, quase sem querer, que fica flutuando no escuro do quarto como um grilo que insiste em cantar.
São esses tesouros de bolso — o jeito de pegar na mão, o riso que faz cócegas na alma — que a gente leva na mudança definitiva. O resto? O resto é excesso de bagagem.
A bondade não precisa de trombetas. Ela é como uma manta de lã velha num dia de geada: simples, quentinha e silenciosa. É o olhar que entende tudo antes da boca se abrir; é o “estou aqui” que serve de corrimão quando a vida resolve inventar uma escada íngreme demais.
Dizem que são detalhes. Mas o detalhe é que é o essencial. São pétalas que, mesmo secas, guardam o perfume de um jardim inteiro dentro de um livro esquecido.
No fim das contas, a gente não caminha pelas estrelas distantes. A gente caminha é pela luz dessas pequenas lamparinas que os amigos acendem no nosso caminho. Essas são as nossas únicas e verdadeiras riquezas: miudezas de amor que o tempo, esse velho relojoeiro, esqueceu de levar.
©️ Beatriz Esmer
