Eu não nasci sendo essa que você vê, mulher de mansidões. O que eu era, antes, era pedra bruta, sem o saber do orvalho. Careceu que eu aprendesse com as flores — essas criaturinhas de Deus que suportam o chicote do céu sem perder o juízo da beleza. Aprendi o viver-sobreviver.
Eu sou o desabrochar que se levanta do escombro, a pétala que se desdobra quando o caos se aquieta. Sou alquimia de ferro e de seda; uma força que brota do temporal, mas com uma doçura de graça que me tempera. Porque o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia, entre o raio e a bonança.
Espelhei-me nessas guerreiras-delicadas. Elas se curvam ante a fúria da ventania, se humilham pro vento para depois ressurgirem enfeitadas de pérolas de chuva. Aprendi a amansar tempestades, a entortar mas não quebrar, aceitando as cicatrizes como escrituras sagradas riscadas no couro da minha própria vida.
Com as flores, tomei tento do ser: carregar o peso do mundo com uma coragem cheia de ternuras. Sou o eco dessa sabedoria que o vento sopra nos grotões. Aprendi a catar os cacos do espírito e com eles tecer uma fortaleza de firmezas. Sou flor que renasce das cinzas, atestando que o espírito da gente não aceita o apagar-se.
Mulher, eu? Sou mais que isso. Sou um mutirão de contradições, uma melodia de fraqueza e mando, a harmonia entre o mole e o rijo. Sou o testemunho vivo de que a beleza não tem medo do perigo, e que a flor mais bonita é aquela que aprendeu a ler a linguagem do trovão.
©️ Beatriz Esmer
