Hoje me deu um desassossego… Essa mania que a gente tem de querer empurrar o tempo com a barriga, só para chegar logo ao “amanhã”. Uma pressa de ser gente grande, de carregar chaves pesadas no bolso e rugas de importância na testa. Tolice.
Lembro-me das pernas curtas querendo dar passos de gigante. A gente espichava o pescoço para ver o que havia na prateleira de cima, sonhando com o corpo de mulher, com os filmes de censura proibida, com essa tal “liberdade” que, vista de perto, tem cara de cansaço.
Depois, o destino prega a peça: passamos o resto dos dias tentando pular o muro de volta. Querendo o segredo daquela gargalhada que dobrava o corpo ao meio, sem motivo nenhum, só por falta de juízo. Querendo, enfim, desaprender as contas de pagar.
No fim das contas, a infância não era um rascunho. Era o livro pronto! A gente é que não sabia ler. Não era ingenuidade; era o tempo esticado como um chiclete, sem essa pressa feia de virar outra coisa. Ser criança era, simplesmente, estar ali e viver na plenitude.
©️ Beatriz Esmer
