Olhei para a xícara de café e vi, no reflexo daquela água escura, o resto de mim que ainda não aconteceu. Havia um cansaço que não vinha dos músculos, mas de uma compreensão súbita, dessas que chegam sem pedir licença enquanto a gente descasca uma laranja.
Quand nous comprenons la finitude de notre existence… A frase soou na minha cabeça com o peso de uma língua que não é minha, mas que o meu corpo entendeu como se fosse um soco. A finitude não é o fim; é o “durante” sabendo que vai acabar. E, nesse relance de lucidez, a mesa, a cadeira, o vestido de linho que escolhi com tanto cuidado — tout devient inutile.
Para que serve a beleza de uma flor se ela é apenas um ensaio para o murchar? A inutilidade das coisas me invadiu com uma doçura terrível. Não era tristeza, era um esvaziamento de sentidos. Eu olhava para as minhas mãos e via o osso por baixo da pele, e o osso era o que ficaria, seco e sem memória. O brilho do sol na janela parecia uma zombaria: ele continuaria lá, e eu, que o olhava agora com tanta sede, seria apenas o vácuo de um olhar que se apagou.
Viver é um luxo tão perigoso que, às vezes, a alma prefere a paralisia do inútil. Fiquei ali, imóvel, sentindo o mundo girar sem precisar de mim. O vazio era, enfim, a minha maior posse.
©️Beatriz Esmer
