O Mapa de Vidro

A gente se encontra como quem não quer nada, mas querendo tudo, naquele meio-tom entre o que se diz e o que se cala. Eu olho para você e penso que, se o acaso fosse um pouco mais generoso, eu me atreveria a alimentar os teus sonhos e deixar os teus medos passarem fome, como quem esquece de dar comida a um bicho que morde. Deixaria teus receios definharem em algum sótão da Rue de Seine, enquanto teus desejos engordariam de vida, de vinho e de jazz.

Éramos como dois fósforos em uma caixa úmida, mas, se eu pudesse acender o mundo, eu o faria apenas para provar que a luz é um excesso desnecessário quando se tem o toque. Nós nos sentaríamos para vê-lo queimar, observando as fronteiras e os calendários derreterem como cera de vela. Não haveria mais mapas, apenas a topografia da tua pele sob o meu olhar.

E quando o incêndio das coisas óbvias estivesse baixo, no final daquela melodia que ninguém mais ouve, nós poderíamos pegar no sono dentro do brilho. Um sono profundo, desses que a gente só consegue quando o mundo lá fora já não importa mais, porque virou fagulha, e a única realidade que resta é esse calor que nos habita, esse resto de luz que fica na retina depois que fechamos os olhos.

©️ Beatriz Esmer

©️Beatriz Esmer

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