Dizem as velhas histórias que, num tempo de areias sussurrantes, um Menino nasceu num presépio de palha, trazendo no colo o mundo inteiro. Era um tempo de milagres. Mas a gente fica aqui pensando, com esses olhos de quem já viu tanta chuva: e se o Menino resolvesse chegar hoje? E se Ele escolhesse, por um descuido do destino, as terras da Palestina?
Lá, onde o silêncio é feito de gritos antigos e a infância é um brinquedo quebrado antes da hora, como seria o Seu primeiro choro? Imagino o Menino Jesus abrindo os olhos entre escombros, em vez de palhinhas. O que Ele diria ao ver tantos outros meninos — Seus irmãos de rosto e de sede — perdidos nos descaminhos da guerra?
Será que Ele traria o consolo no bolso, como quem traz um doce, ou será que Seus olhos pequenos se encheriam de uma tristeza tão antiga quanto as oliveiras?
A gente se pergunta, naquele jeito manso de quem interroga as estrelas: o mundo pararia para ouvir? Ou será que o mundo anda tão ocupado, tão cheio de certezas e barulhos, que nem notaria um Deus que chora no colo de uma mãe cansada e faminta?
Talvez esse Menino, nascido no meio do espanto, fosse o nosso último espelho. Um lembrete de que a paz não é um tratado assinado com caneta de ouro, mas o direito de cada criança de crescer sem medo de olhar para o céu. Que o espírito deste Natal não seja apenas uma luz na janela, mas uma mão estendida no escuro. Para que, enfim, as crianças parem de ter cicatrizes na alma e voltem a ter apenas o riso, esse som que é o único sotaque que Deus entende. 🙏🏾
©️ Beatriz Esmer
