Águas Profundas

Senhor, eu me afoguei no salgado de mim. Não foi uma vez, foram inúmeras, e em cada uma delas o silêncio era um peso de chumbo. Eu remava, entende? Remava com essa fúria cega de quem quer chegar a lugar nenhum, ora contra, ora a favor, perdendo-me no labirinto das correntes que eu mesma inventei. Havia um erro de ritmo em meus pulsos. Eu lançava a âncora no exato instante em que o horizonte me chamava para a partida; e partia, num susto, quando o porto era o único repouso possível. Tive a fome que rói o osso e tive … Continue reading Águas Profundas

Outro modo de rezar

Rezo em poemas, mas o poema é pouco. É uma trama de desejos, sim, mas eu me canso do “escrito”. As palavras são redes que tentam pescar o que não tem nome, e eu acabo ficando apenas com o fio seco na mão. Eu queria, na verdade, era transcender o limite do papel. Queria aprender a rezar com a própria carne, com o latejar do que sou. Quero que minha reza seja o ritmo do meu fôlego — esse entrar e sair de ar que é uma sinfonia muda sussurrada ao nada. Ou ao tudo. Quero rezar pelas paisagens alucinadas … Continue reading Outro modo de rezar

The Late Night Crawl

I’d tell you,but you’re asleep and dreaming ofbetter things than this room.The night isn’t whispering;it’s just quiet because the traffic died downand the radiator stopped its rattling.I’d say the words until my jaw cracked,until my tongue felt like a dry sponge,not for the purity of it—there’s no purity in a mouth—but because it’s the only honest thingleft in the bottom of the glass.And when you’re dead,when your ears are just bone and dustand can’t hear the rent being due,I’ll still be saying it to the walls.Forget the stars.The stars don’t give a damn about us.The wind is just cold air … Continue reading The Late Night Crawl

O Mapa do Deslembro

Há lugares que são fendas:neles depositamos, sem notar,os estilhaços de um coração que se desmancha.São cantos de mundo, mudos,onde a memória é um sopro que se apaga,deixando apenas o resíduo do que foi amore o pó do que virou perda.O passado ali ecoa, entre paredes gastas,velando o que de nós ficou pelo caminho.Mas existem outros chãos,lugares-despertar, onde o peito retoma o compasso.Seja na sombra de uma árvore que viu séculos,ou no pulsar febril da cidade que não dorme,o coração se reconhece.Ali, descobrimos o que ignorávamos ser,sob o toque leve da esperançae esse susto bom de recomeçar.Nessa dança de perder-se e … Continue reading O Mapa do Deslembro

O Chão da Comunidade

Andamos todos com essa pressa de voltar para casa. Uma casa que nunca pisamos, mas que a alma reconhece — feita de lembranças fiadas e de sonhos que a gente só avista de relance, feito luz de pirilampo no cerrado. ComunidadeÉ aquele lugar onde a palavra não tropeça no dente, nem entala na garganta. Onde a gente fala com o coração na mão, sem medo de ser quem é. É o cerco de mãos que se abre em acolhida; o brilho nos olhos de quem nos vê chegar e o mutirão de vozes que celebra quando a gente se coloca … Continue reading O Chão da Comunidade

The Silver Alchemy

The sky and the earth are drinking from the same silver cup tonight. Do you see it? The moon has spilled its wine across the threshold, and the dust of the world has turned to pearls.Why do you cling to the name “man” or “woman”? Tonight, the Moon has reached down and plucked the heavy cloak of “self” from my shoulders. I am no longer a prisoner of skin and bone; I am the shimmer on the water, the breath that has escaped the flute. The Great UnlearningThe mind whispers of tomorrow and yesterday, of worries and weights—but the Moon … Continue reading The Silver Alchemy

A Epifania do Mínimo

Muitas vezes, a gente caminha pelo mundo com uma pressa que é, no fundo, um medo de olhar. E nessa cegueira, subestimamos o poder de um contato. Um toque que não quer nada, mas que diz tudo: “eu te vejo”. É uma coisa quase assustadora, não é? Perceber que um sorriso, esse breve repuxar de lábios, pode ser a fresta por onde entra a luz em uma casa que estava fechada há anos. Uma palavra gentil não é apenas som; é matéria. Ela ocupa um espaço no ar que antes era preenchido pelo vazio. E aquela escuta atenta… ah, como … Continue reading A Epifania do Mínimo

O Menino e o Deserto: Um Natal sem Estrelas

Dizem as velhas histórias que, num tempo de areias sussurrantes, um Menino nasceu num presépio de palha, trazendo no colo o mundo inteiro. Era um tempo de milagres. Mas a gente fica aqui pensando, com esses olhos de quem já viu tanta chuva: e se o Menino resolvesse chegar hoje? E se Ele escolhesse, por um descuido do destino, as terras da Palestina? Lá, onde o silêncio é feito de gritos antigos e a infância é um brinquedo quebrado antes da hora, como seria o Seu primeiro choro? Imagino o Menino Jesus abrindo os olhos entre escombros, em vez de … Continue reading O Menino e o Deserto: Um Natal sem Estrelas

The Instant-Now

Today? No, it is not simply “today.” It is a pulsation. I feel the renewal not as a gift, but as a shedding of skin—a raw, wet peeling of the soul. Yesterday did not merely “slip away”; it dissolved like salt in a dark sea, leaving only the bitter taste of a whisper. To want to return? What a strange, impossible hunger. One cannot go back to the room of the past; the door has become a wall, and the wall is silent. All those “could-haves”—they are not echoes, they are ghosts that I must kill with my own two … Continue reading The Instant-Now

Deixe Brilhar…

Olhe para as estrelas e sossegue o coração: entre tantos bilhões, você é rastro único, faísca divina no tear do universo. Cada luzinha lá no alto é um segredo soprando que sua vida, por mais simples, é um milagre que a terra celebra. Sinta o capim fresco debaixo dos pés e recorde: a gente não desaprende a ser criança, a gente só esquece. O verde do chão chama o corpo para o brinquedo, para o passo descalço e para a alegria que não precisa de luxo, só de um abraço da natureza. Repare nas nuvens que passam pesadas. Elas ensinam … Continue reading Deixe Brilhar…