O Jardim dos Afetos

Dizia o mestre que a gente não é dono de nada. O jardim, se você reparar bem, é uma lição de desapego escrita em verde. Tem gente que olha para uma orquídea e diz: “Esta flor é minha”. Pobre ilusão. O pronome possessivo é uma gaiola de ouro que a gente inventa para tentar estancar o fluxo da vida. As plantas, coitadinhas, não entendem de cartório. Elas não são pronomes; elas são verbos. Amar é verbo. É o ato contínuo de regar, de observar o silêncio do broto, de respeitar o tempo da floração que não obedece ao nosso relógio … Continue reading O Jardim dos Afetos

O Acerto de Contas com o Espelho

— Você está curada? — perguntou a voz dentro do espelho, uma voz que tinha o som de papel rasgado.— O corpo sim. A carne fechou-se sobre o susto. Mas algo ficou aberto.— O caderno.— Sim, o caderno. A morte me deu um bloco de notas e esqueceu de levar a caneta. Agora, cada batida do meu coração parece o tique-taque de uma conta que precisa ser paga. “Diga quem você é”, o caderno me ordena. E eu… eu não sei o que dizer sem usar nomes que não me pertencem.— Não use nomes. Use o que você sustenta. O … Continue reading O Acerto de Contas com o Espelho

Mãe III

Mãe,Trago comigo esse passado mal enterrado,lembranças que teimam em fazer sombra,feito assombração de beira de estrada.Tem noites que sua filha parece se desmanchar,uma dor de rasgar o peito, um lamento que não finda.Mas quando o galo canta e o sol aponta no cerrado,eu mesma vou juntando meus pedaços,remendando o que a vida esgarçou.Sou feita de cacos, é verdade,como louça antiga que caiu do armário.Mas em cada emenda, mãe, tem um fio de força.Minhas cicatrizes são os meus caminhos,são as rugas da alma que aprendi a aceitar.Ainda não soube enterrar o que passou,mas vou levando o fardo com a calma de … Continue reading Mãe III

O Ofício de Sentir

Trago aqui minhas mãos carregadas de memórias, não como quem carrega um peso, mas como quem sustenta o próprio vazio do tempo. São mãos que pesam de tanto nada conterem, senão o rastro do que passou. Ouço-as repetidamente escrever — e é estranho que as mãos falem aos ouvidos do espírito. Elas escrevem sobre sonhos, essa arquitetura do impossível que construímos para não ter de olhar para o chão. Escrevem sobre a beleza, que nada mais é do que o cansaço de não saber o que as coisas são. E escrevem sobre a alma, essa palavra que usamos para nomear … Continue reading O Ofício de Sentir

Para o Desabrochar de 2026

Não desejo a vocês um ano de grandes barulhos, mas de grandes silêncios. Que em 2026 a alegria não seja um evento passageiro, mas aquela paz mansa que a gente sente ao ver um ipê florir ou ao provar um pão quentinho. Desejo que cada dia seja como uma música antiga, tocada baixinho, feita de momentos que a gente guarda no “bolso da alma”. Que o riso de vocês não seja apenas um som, mas o transbordar de um coração que aprendeu a descansar na própria serenidade. Que a vida em 2026 tenha a delicadeza das pétalas: que caem sem … Continue reading Para o Desabrochar de 2026

The Geometry of the Minute

It is not in the grand architecture of a cathedral that a man reveals himself, but in the way he peels an orange. There is a quiet, rhythmic gravity in the movement of the hand; the way the zest curls under the knife is the same way his soul bends toward a difficult love or a heavy task. We often tell ourselves that we are saving our greatness for the “event,” for the one day when the spotlight finally finds us. We treat the mundane like a dusty hallway we must sprint through to reach the ballroom. But the hallway … Continue reading The Geometry of the Minute

The Uncharted Pulse

May no one stitch me into their white, pious intentions. May no one pluck at my sleeve for directions I have long since burned. I am allergic to the ‘Come here!’—that small, beckoning hook that seeks to pull me into the parlor of the predictable. My life is no longer a quiet room; it is a storm that has finally broken its hinges. I am a wave, heavy and salt-crusted, rising far above the polite vibration of the atom. I am a fever of motion. I do not know the name of the shore I am hurtling toward, nor do … Continue reading The Uncharted Pulse

O Mapa de Vidro

A gente se encontra como quem não quer nada, mas querendo tudo, naquele meio-tom entre o que se diz e o que se cala. Eu olho para você e penso que, se o acaso fosse um pouco mais generoso, eu me atreveria a alimentar os teus sonhos e deixar os teus medos passarem fome, como quem esquece de dar comida a um bicho que morde. Deixaria teus receios definharem em algum sótão da Rue de Seine, enquanto teus desejos engordariam de vida, de vinho e de jazz. Éramos como dois fósforos em uma caixa úmida, mas, se eu pudesse acender … Continue reading O Mapa de Vidro

An Open-Hearted Soul

You know, my dear, that “white blindness” or the “thick skin” we call selfishness isn’t just something found in old storybooks. It hides right here, inside each of us, waiting for a moment of distraction to take root. If we feed the darkness of the heart, our eyes grow tired and lose the habit of seeing anything beyond the fence of our own ego. In the rush of our daily chores, this quiet selfishness can wake up over the smallest thing, blurring our vision and shrinking our world. It grows strong on neglect—on the “good mornings” we don’t say and … Continue reading An Open-Hearted Soul

O Instante-Já do Nada

Olhei para a xícara de café e vi, no reflexo daquela água escura, o resto de mim que ainda não aconteceu. Havia um cansaço que não vinha dos músculos, mas de uma compreensão súbita, dessas que chegam sem pedir licença enquanto a gente descasca uma laranja. Quand nous comprenons la finitude de notre existence… A frase soou na minha cabeça com o peso de uma língua que não é minha, mas que o meu corpo entendeu como se fosse um soco. A finitude não é o fim; é o “durante” sabendo que vai acabar. E, nesse relance de lucidez, a … Continue reading O Instante-Já do Nada