O Abrigo de Ser

Desejo-te o melhor, mas o que é o melhor senão esse instante em que a vida se suspende? Dou-te a minha companhia, esse silêncio preenchido que te impede de sentir o peso da solidão. Ofereço-te o sol, a lua e o mar, não como coisas distantes, mas como substâncias que nos atravessam.

Se quiseres, tenho aqui um bilhete para qualquer lugar do mundo. Mas que o destino seja a perda: quero que nos percamos. Perder-se é encontrar uma liberdade que assusta.

Quero a vida boa, a brisa que não pede licença, a paz que é quase um cansaço feliz. Nossas tardes teriam cheiro de mar e gosto de vinho, esse líquido que desata os nós da alma. Rir por nada… tu já notaste como rir sem motivo é uma das poucas coisas seriamente boas que nos restam?

O meu lugar no mundo é o teu contorno.

És a razão dessa felicidade que me dói um pouco, de tão plena. Não digas que não estou perto; a distância é uma invenção de quem não sabe sentir. Meu amor, vem voar comigo, não um voo de pássaros, mas um voo de entrega. Teus braços são o meu abrigo, o único teto que não me sufoca.

Quero oferecer flores a Iemanjá, pedir-lhe um paraíso onde possamos apenas encostar a cabeça e ser. Ouço um violão que toca uma melodia quase invisível, convidando o corpo a uma dança que a mente não entende. Que as estrelas nos abençoem com sua luz fria e eterna.

Olha para o céu. Sorri. Agradece. Não porque seja fácil, mas porque o instante é um milagre que se desfaz. Não digas que não sou a tua metade; somos um inteiro que se reconhece no escuro.

Vem dançar comigo. Teus braços são o meu abrigo.

Meu abrigo. Meu descanso de ser.

©️Beatriz Esmer 

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