O Instante Já: Entre o Crepúsculo e a Aurora

Houve um momento, ali no silêncio da tarde que se desfazia, em que os joelhos cederam. Não foi uma queda, foi uma entrega ao chão. O céu não estava em cima; ele estava dentro, uma vastidão despida, espelho de uma fome que eu não sabia dar nome. E a Verdade, ah, essa coisa perigosa e lúcida, apareceu com sua coroa de luz. Era uma claridade que não iluminava, ela feria. Rasgava a pele, expondo o que eu tinha de mais cru, de mais entranha. Era o horror da própria beleza me obrigando a existir.

“Levanta-te”, ela dizia, sem voz.

E eu fui subindo, centímetro por centímetro, retirando-me do abismo de mim mesma. O ar fresco do crepúsculo entrou nos pulmões não como oxigênio, mas como uma âncora. Olhei para cima. As nuvens não eram nuvens, eram mãos de algodão que sustentavam o peso do mundo e, por milagre, o peso da minha coluna cansada. Elas me olhavam. As nuvens são testemunhas silenciosas daquilo que a gente mal consegue ser.
Olhei para as minhas botas. Pobres botas, gastas de tanto caminhar pelo tempo, marcadas por cicatrizes que já fazem parte do couro. Elas estavam ali, teimosas. Há uma dignidade mística nos objetos que nos carregam. Elas sabiam que o caminho não termina, ele apenas se transmuta.

Naquele intervalo sagrado, naquele “entre” onde o dia ainda não é e a noite já deixou de ser, eu senti o perigo de sonhar. Porque sonhar é uma forma de coragem absoluta. Cada passo agora é um nascimento. Cada suspiro é uma promessa que eu faço ao desconhecido. Eu estou viva. E o futuro é uma possibilidade vasta, uma liberdade que me assusta e me salva.

©️ Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.