Sento-me. E, ao sentar, percebo que a madeira dessas cadeiras não é apenas madeira; é um corpo que desistiu de ser árvore para virar espera. Elas estão ali, descascadas, expondo o ferro enferrujado como quem expõe as próprias veias após um longo cansaço. É uma nudez que não envergonha.
Dizem para sentar-se com os que falharam. Eu entendo. É que quem nunca falhou ainda está muito ocupado com o brilho da própria armadura, e o brilho cega. Quem falhou, ah, esse já quebrou o espelho. No lugar do reflexo perfeito, restou o espaço. E o espaço é a única coisa que permite que o outro entre.
Olho para o tronco atrás das cadeiras. Ele é imenso, rugoso, indiferente ao meu drama humano de querer “ser alguém”. O ego é uma pele apertada demais, uma roupa de domingo que nos impede de respirar o mofo sagrado das coisas como elas são. Quando o ego morre — e ele morre um pouco a cada fracasso — o que sobra não é o nada. É a experiência. E a experiência tem cheiro de terra molhada e gosto de ferro na boca.
Não é uma conversa de palavras que busco nessas cadeiras. É uma conversa de presenças. Estar ali, simplesmente, sem a obrigação de vencer o dia. Ser, finalmente, tão real quanto a ferrugem, tão entrega quanto a hera que sobe pelo tronco sem pedir licença.
Falhar é, no fundo, o maior dos luxos: é o momento em que a máscara cai e a alma, finalmente, pode sentar-se e descansar as pernas.
©️ Beatriz Esmer
