A Casa: Um Ensaio de Ser

Minha casa é o santuário do meu feminino, o refúgio onde meu ser se dissolve e se encontra no silêncio de cada canto. Não é apenas teto; é um tecido de texturas, livros e rostos emoldurados — uma sinfonia de padrões que dançam para o meu cansaço e refletem o que, em mim, é abismo.

Tal como as paredes são a extensão do que desejo, minha alma é um caleidoscópio de alegrias cruas e dores que ainda não cicatrizaram. Cada vontade é um grito silencioso, um testemunho do que fui, empurrando-me para essa coisa vaga e urgente que chamamos de amor.

Neste instante, sinto o peso da minha própria alma. Cada camada que retiro revela um rosto que eu não conhecia. A casa é o meu espelho; nela, vejo minha paixão e a lucidez que me fere. É uma tela que captura não o que eu sou, mas o que eu tento ser enquanto ninguém olha.

Ao atravessar os cômodos, tropeço no rastro dos meus dias. Ouço ecos de risos que já não me pertencem e sussurros de sonhos que ainda não tive coragem de viver. Ali, o desejo e a memória se enovelam. Minha casa não é tijolo nem cal: é um corpo vivo, pulsante, o testemunho mudo dessa jornada que me esculpe e, às vezes, me consome.

©️ Beatriz Esmer

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