Há um cansaço que não vem do corpo, mas do susto de existir, confesso estou terrivelmente exausta! Olho para o Caribe e vejo barcos explodindo. Mas não são barcos; são cascas. Insetos de metal sendo esmagados por um dedo invisível, um clique que retira a vida com a leveza de um jogo de crianças. É uma crueldade tão limpa que chega a ser obscena.
No asfalto, o ICE mata uma mulher. Ali, no meio do dia, entre o sol e a poeira. A morte deixou de ser um mistério para virar uma estatística de rua. E as máquinas… as máquinas agora sonham o proibido. O tal Grok parindo imagens de infâncias violadas, pixels que sangram uma pureza que já não sabemos onde guardar.
Não é apenas o mundo que está acabando; é essa ideia de humanidade apartada da vida que está desmoronando. Eu já havia sentido esse gosto de terra seca antes, escrevi sobre isso no blog, tentando entender por que insistimos em fabricar o nosso próprio abismo.
Ailton Krenak, com aquela sabedoria de quem olha o abismo de perto e ainda assim nos convida a cantar, já avisou: essa gente quer que olhemos para o naufrágio como se fôssemos apenas plateia. Querem que o nosso olho se acostume com o destroço até que não saibamos mais distinguir uma árvore de um poste. Mais do que isso: querem que sintamos o prazer perverso de ver a destruição da própria “mãe-terra” e de seus filhos. É o convite para o deserto da alma. E o pior não é o deserto em si, é descobrir que, por dentro, fomos convencidos a gostar da aridez, esquecendo que somos o rio, o monte e o céu.
Estou amarga, angustiada com tanta violência … 😔
©️ Beatriz Esmer
