O Ovo e a Fúria

Era um povo que rezava. E, no entanto, entre um “Amém” e outro, havia um silêncio que não era de Deus; era o silêncio de quem espreita o próprio ódio como se fosse uma joia. Eles diziam “família” com a boca cheia de dentes, mas o que queriam era o osso, o corte, a segurança de que o outro — aquele que não sou eu — estivesse devidamente morto.

Votaram. E ao votar, sentiram um prazer quase físico, uma espécie de espasmo de liberdade: a liberdade de finalmente não precisar ser bom. É um cansaço, sabe? Ser bom exige uma arquitetura que eles já não suportavam carregar. Escolheram a tortura como quem escolhe um móvel novo para a sala: algo sólido, que coloque as coisas no lugar, mesmo que o lugar seja o sangue.

Eram tão cordiais que, ao retirarem a máscara, sorriram. Não era um rosto novo que aparecia por baixo, era apenas o vácuo. A banalidade do mal não tem cara de monstro, tem cara de domingo à tarde, tem cheiro de café passado e de uma indiferença tão límpida que chega a ser cristalina.

Eles não sabiam que, ao votar no fim do outro, estavam, com uma delicadeza atroz, assinando o próprio inventário. Estão todos vivos, sim. Mas é uma vida sem o “it”, sem aquela coisa que pulsa e justifica o erro. Tornaram-se apenas estátuas de sal, olhando para trás, para um passado que nunca existiu, enquanto o agora se dissolve em pó.

©️ Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.