Havia entre as duas um silêncio que não era falta de assunto, mas excesso de pertença. Olhavam-se e, no reflexo da pupila de uma, a outra encontrava a própria infância — aquele território de joelhos ralados e segredos soprados sob o lençol, onde o mundo ainda não tinha nomes complicados.
Ser irmã era, para elas, um exercício de invasão consentida.
“Você me vê?”, perguntava o olhar de Maria, enquanto cortava a maçã com uma precisão quase cruel. Clarice — a outra, a que levava o nome mas buscava a alma — não respondia com palavras. As palavras são duras demais, têm arestas que machucam a delicadeza do que é puramente sangue. Ela apenas sentia o gosto do ferro da maçã na própria boca, como se o paladar fosse um órgão compartilhado.
Era um amor que não pedia licença. Um amor que cansava, às vezes, por ser espelho demais. Olhar para a irmã era confrontar-se com o que se poderia ter sido e com o que, fatalmente, se era. Havia uma mudez cúmplice na cozinha, o barulho da faca no prato batendo como um metrônomo da existência.
“Somos uma só”, pensava a menor, sentindo um pânico doce. “Se ela parar de respirar, eu ainda saberei como se faz?”.
Não era uma união de paz, mas de reconhecimento. O amor de irmãs era aquele fio invisível e tenaz que as mantinha presas ao centro da terra, impedindo que a vida, em sua fúria centrífuga, as arremessasse para longe de si mesmas. Elas se odiavam um pouco, como se odeia a própria sombra por estar sempre ali, mas se amavam com a violência de quem sabe que, no fim de tudo, restaria apenas aquele eco familiar.
©️ Beatriz Esmer