O Estrangeiro do Ser

Ontem, o mundo emudeceu em Minneapolis, mas o silêncio era de aço. Um agente do ICE disparou contra Renee Good. Trinta e sete anos, três filhos, uma vida interrompida. Nas redes sociais, a comoção se veste de gala: gritam que ela era uma “cidadã americana”. E é aí, nesse grito seletivo, que a minha alma tropeça.

Sinto um cansaço que não vem do corpo, mas dessa constatação lúcida e cruel: quando um latino tomba pelas mãos da mesma força, o mundo não para. O silêncio, então, não é de luto; é de indiferença. Parece-me — e esse “parece” dói como uma certeza — que criamos divisões na própria essência do ser. Há categorias de humanidade. Há o humano que merece o choro e o humano que é apenas um dado estatístico, um corpo que não ocupa espaço na memória coletiva.

Pretos, latinos, amarelos… Seriam eles feitos de outra matéria? De um barro menos sagrado?

É de uma tristeza metafísica perceber que a morte de quem não carrega o selo de “americano” tornou-se algo aceitável, um ruído de fundo que mal incomoda o jantar. A vida humana, em sua nudez mais pura, deveria ser o único critério para a dor. Sem exceções. Sem passaportes.

Deveríamos todos, numa prece pública ou num grito visceral, lamentar cada sopro que se apaga. Pois, enquanto houver essa hierarquia de quem merece existir, nenhum de nós estará verdadeiramente vivo.

©️ Beatriz Esmer

©️ BEsmer

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