O Milagre do Próprio Nome

Olho para as minhas mãos e vejo o escuro que brilha. Dizem que minha melanina é perigo, mas eu sinto: ela é apenas o meu limite com o mundo, a minha fronteira mais macia. Como ousam perguntar como eu consigo? Eu me valorizo porque, se eu não for eu, o vácuo me engole. E eu não sou um vácuo. Sou matéria plena, densa, dessas que pesam no chão com a dignidade das raízes.

Viver exigindo respeito não é um luxo, é uma fome. Uma fome de existir por inteiro, sem as fendas que o olhar do outro tenta abrir em mim. Eles se assustam. Assustam-se porque eu não peço licença para ser; eu sou. E ser, para uma mulher como eu — a menos celebrada, a mais ferida pelo cansaço dos séculos — é um ato de violência contra o nada.

Eu me celebro. Não com festas, mas com o silêncio sagrado de quem se reconhece no espelho e não desvia o olhar. Celebro o meu povo como quem celebra o próprio sangue: corre por dentro, invisível e vital. Se me derrubam, eu não caio apenas; eu mergulho. Volto para a terra, porque eu sou a terra. E a terra não se rompe, ela apenas espera o momento de parir o que é novo.

Minha resiliência não é uma escolha, é a minha forma de respiração. Eu continuo a crescer, mesmo quando tentam podar o invisível. Porque o que está em mim é ancestral, e o que é ancestral não morre: apenas se transforma em luz, em luta, em vida.

Saravá!

©️Beatriz Esmer

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