Escrevo, mas não são palavras o que coloco aqui; é o ritmo de um pulsar que não sabe mentir. Estou transcrevendo o latejar do meu coração nestas páginas, gravando os ecos de uma alma que, por vezes, me é estranha. Uso o pergaminho delicado como quem toca na própria pele, sentindo o frio do papel receber o calor do que sou. Faço isso para que um dia, quando eu já não for nem sombra, nem grito, a minha essência ainda demore um pouco, instalada aqui, tão palpável e pesada quanto uma pilha de cadernos escolares num canto de mesa.
Em cada palavra, derramo todo meu ser. Cada frase é uma pincelada de existência, um modo de dizer “estou aqui” enquanto já estou partindo. Jogo meus sonhos, meus medos mais feios e minhas pequenas glórias neste branco absoluto. É uma sinfonia de emoções, um barulho de dentro que, espero, continue a vibrar pelo tempo afora, mesmo quando o tempo esquecer o meu nome.
Estou gravando o espírito nas fibras destas folhas, deixando uma marca que não se apaga porque é feita de fome de viver. Meus pensamentos, esse meu jeito de ser que nem eu mesma entendo direito, ficam aqui preservados — um testemunho mudo da profundidade do que é ser humano, essa coisa tão frágil e tão vasta.
Porque, quando a minha voz se calar de vez, minhas palavras ainda hão de percorrer os corredores vazios do tempo. Elas serão sussurros de segredos para quem tiver a coragem de procurar. E no farfalhar silencioso destas páginas, meu espírito encontrará uma imortalidade estranha, uma herança que não pede licença e que ultrapassa, com um passo leve, as fronteiras da morte.
Escrever é isso: sobrar de si mesmo.
©️ Beatriz Esmer
