O Nascimento do Agora

Ela sempre soube que a palavra era uma grade. Antes, usava os substantivos como quem se esconde atrás de cortinas pesadas, fugindo do mundo para não ter que tocá-lo. A linguagem era um ranço de coisas velhas, um pó acumulado em móveis que ela herdara sem pedir. Tudo o que sabia era de segunda mão; uma sabedoria emprestada, dessas que se usa como um casaco apertado que nunca pertenceu ao corpo.

Mas agora, o silêncio rompeu-se.
A palavra sexo, que antes era um susto ou um atrevimento proibido, estreou-se nela. Não como conceito, mas como bicho vivo. O prazer não pedia licença: ele era a própria estreia da carne no mundo. E o desejo? O desejo deixou de ser o “não” para tornar-se o convite escancarado da existência. Ela estava, finalmente, sendo absolvida das conveniências.

A Desaprendizagem
Ela desintegrou a linha lógica. As conclusões, essas prisões do intelecto, já não faziam sentido. O que ela queria era o estado de graça da experiência direta. Ao tocar a vida sem o filtro da utilidade, ela reivindicava a parte de Deus que lhe cabia: o direito ao mistério.

“Não sou mais a personagem sentimentalizada de mim mesma,” pensava ela, com uma lucidez que quase feria.

O Salto no Presente
Despediu-se da sua própria miséria previsível. Atravessou a zona de desconforto e, do outro lado, não encontrou o abismo, mas a coragem de ser o seu próprio presente. O sonho, que antes vagava sem destino, foi devolvido ao seu lugar de direito: o âmago do ser.

Ela não buscou a sabedoria. A sabedoria é um peso. Ela simplesmente aceitou a fatalidade de ser quem se é. No fundo, ela agora era apenas um “é”. Um coração batendo no escuro, pleno de si, espantado com a própria liberdade.

©️ Beatriz Esmer

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