A Arte não Possui Fronteiras

A arte, meu amor, e digo “meu amor” como quem diz uma fatalidade, não nasce do veludo. Ela não é esse adorno pálido que se compra com o excesso ou com o privilégio de quem tem as mãos limpas. Não. Ela é filha da urgência. É o grito que se desprende quando o silêncio se torna insuportável.

Ela não foi acalentada por mães suaves em berços de ouro. A arte que me toca é aquela que tem as pernas sujas de barro, que cresceu no estômago vazio do gueto, no fôlego curto da favela. É uma criação de luta, um parto feito no susto, entre o ferro e a sobrevivência.

Sabe, ela é de uma cegueira divina: não enxerga cor, não distingue raça, não pergunta o credo. É uma força que atravessa as paredes que construímos para nos sentirmos seguros. Ela é generosa por pura falta de escolha, ela precisa transbordar. Quando ela chega, ela revoluciona. Não o mundo lá fora, mas o “eu” aqui dentro, esse núcleo oprimido que a gente esconde sob a pele. Ela dá asas ao aflito, mas não asas de anjo; asas de pássaro que sabe que o céu é vasto, mas o vento é forte.

É o sossego no centro do caos. É encontrar, no meio do escuro mais denso, um ponto de luz que não se apaga porque é alimentado pela nossa própria resiliência. A beleza, meu amor, é um milagre de teimosia. Ela floresce no improvável. E a verdadeira arte… ah, essa não tem limites, porque ela é o próprio infinito acontecendo agora.

©️ Beatriz Esmer

©️BEsmer

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