O Mergulho na Letra

Leio, não com os olhos, mas com a ponta dos dedos que tateiam o abismo. Eu leio para iludir-me, porque a realidade crua é uma fruta que ainda não aprendi a descascar sem sangrar. Há um cansaço em ser apenas eu, em estar presa nessa moldura de ossos e nomes. Então, leio para tombar-me nos mistérios, deixando que a queda seja o meu único apoio. Cair é uma forma de voar quando o chão é de papel.

Sinto o gosto das vogais na garganta. Leio para por-me na boca dos pássaros, querendo que eles me levem para onde o sentido das coisas ainda não foi inventado. Quero a leveza de ser bicho, a crueza de ser canto. É um movimento de entrega: leio para que as dores, essas que carregam pesos de ferro nos meus ombros, sejam mastigadas pela boca misericordiosa de um deus qualquer. Um deus sem rosto, sem altar, um deus que seja apenas o silêncio que resta depois que o livro fecha.

E se nada disso fizer sentido? Se a transcendência for apenas um truque de luz na retina?

Sinto uma náusea doce. A verdade é um espelho quebrado e eu não quero juntar os cacos. Quero apenas o instante. O resto? O resto é o cansaço do mundo, a etiqueta das gentes, a lógica que me aperta o pescoço… e foda-se… O que importa é esse latejar agora, esse vazio preenchido pelo que não ouso dizer. O foda-se é a minha oração final. É onde eu, enfim, descanso.

©️ Beatriz Esmer

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