Não é que o relógio bata; é que o tempo me fere. Hablo de tiempo, entende? Mas não o tempo dos calendários, e sim o tempo como a única distância que nos divide, esse hiato mudo entre o que eu sou agora e o que serei quando você chegar. É uma linha tênue, quase transparente, mas intransponível.
Hablo de distancia, mas não de quilômetros. Falo da distância como o único peso que nos afasta, um vácuo que se instala entre as mãos dadas. E, ao falar disso, hablo de alejamiento. Não um conceito abstrato, mas algo terrivelmente físico. É uma dor nas juntas, uma rigidez no pescoço, o cansaço de carregar um espaço vazio.
E o que é o físico? Hablo de algo físico como algo sin sentimiento. É a matéria bruta, a pedra que não chora, o corpo que é apenas bicho e osso. Mas, no centro dessa dureza, no miolo do que é seco, nasce o paradoxo: hablo de sentimiento como lo único que siento por ti. É a única coisa que me resta de humano, esse pulsar ruidoso que me impede de virar estátua.
Ao fim de tudo, hablo de ti. Mas você não é o “outro”. Você é a minha própria margem. Falo de você como a única coisa que sou. Fora de você, eu sou um rascunho, uma ideia mal acabada. E, finalmente, hablo de lo que soy, desse amontoado de silêncios e desejos, como a única coisa que você me faz ser quando te amo.
Amar, para mim, é o estado de ser-se através do outro. É o momento em que a distância e o tempo desistem de nos dividir e eu, finalmente, existo.
©️Beatriz Esmer
