O Nascimento de uma Estrangeira

Há exato um ano eu vim a morrer. Foi um evento mudo, sem a elegância dos mármores. Morri com a deselegância súbita de um afogado que, ao debater-se, descobre que a água é apenas o seu próprio medo. Soube de minha morte como nunca soube da minha vida: por uma intuição ferina, um corte de faca no escuro.

Vim a perecer pelo desespero de quem perdeu a si mesmo e, na pressa de se encontrar, acabou por se perder de vez. Não havia esperanças de reaver-me. Morri com a pouca dignidade que juntei para viver, uma dignidade de trapos. A falência das minhas verdades e o colapso das minhas mentiras, que eram tão bem arquitetadas, quase adornos, decretaram-me o óbito. Sujeitei-me a cortar-me nos próprios estilhaços, jogada naquele abismo que eu mesma cavei ao atirar-me, prematura, contra os futuros que ainda nem existiam.

Morri sem anúncios. Um óbito de indigente. Calei-me pela vergonha de haver morrido enquanto todos tomavam café. Calada por não haver aprendido o perdão, essa coisa impossível e mastigável. Calada por não haver sido fiel ao peito, que batia sozinho, sem mim. Calada pelo passado atravessado na garganta como um osso que não se cospe nem se engole. Trancada em minha particular caixa de Pandora, adoeci da morte que não planejei para, quem sabe, curar-me da vida que não vivi.

Mas acontece que, há exato um ano, venho eu a renascer.

É um parto difícil, com a deselegância de uma mulher sempre atrasada para o próprio encontro. Renasço como uma promessa que se carrega até que ela pese tanto que precise ser cumprida. Renasço nas primeiras horas dos amanhãs, quando o sol ainda é uma ameaça de luz. Renasço entre os medos que agora enfrento, porque a morte me assustou com sua mudez; entre os sonhos estranhos que despeço todas as noites; entre as ilusões que, cotidianamente, despedaço com as mãos sujas de realidade.

Renasço porque fiz as pazes com a lucidez, essa luz branca e fria que não permite esconderijos. Agora tenho tempo para ser outro no espelho, um outro que eu ainda não conheço, mas cumprimento. Carrego as dores de um parto reincidente, uma dor que se repete como um mantra. Dispenso os anjos e os demônios que esperavam minha desistência. Eles que esperem sentados. Não o sou. Não o serei.

Renasço porque seria-me pouco, entende? Seria-me quase nada manter-me morta. Renasço porque não há saída, nem fuga, nem porta de emergência. O único caminho é ser. Aniversario a minha morte porque só quem está muito vivo tem fôlego para celebrar o fim. E hoje sei, no fundo dessa náusea doce que é existir: ando a morrer um pouco a cada dia. É o meu tributo. Morro para poder caber no viver.
Viver melhor…

Saravá!

©️ Beatriz Esmer

©️BEsmer

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