O Esquecimento do Amor

O amor jurava lembrar-se. Era uma promessa vasta, dessas que se penduram no teto da alma como um lustre pesado. Mas não naquele momento. No “agora”, o amor era uma mudez, um branco súbito na memória do coração. Quem sabe para amanhã haveria de ter mais sortes, ou quem sabe o amanhã fosse apenas outra forma de adiar o que já dói.

Ela gostava da ideia de ajudá-lo. Ficava ali, à espreita do próprio sentimento, esperando saber ao certo o que fazer, como se a vida exigisse uma licença prévia para se manifestar. O mundo, ela sentia, era um lugar de gente enganada; uma multidão tateando paredes em busca de portas falsas. Menos o amor. O amor não enganava ninguém. Ele apenas não lembrava. Era uma espécie de amnésia sagrada, um vazio que não quer ser preenchido, apenas respeitado.

Por ora e por hábito, esse vício de existir sem se perceber, substituíamos Deus pela oração. Não por fé, mas pelo ritmo das palavras. Substituíamos a felicidade por ideias poéticas, depositando versos sobre o concreto das horas, colocando um ritmo em cada coisa para não ter que encará-las em sua crueza.

Escrevíamos para lermos depois, enquanto o amor continuava em seu sono de mármore, sem se lembrar de nós. Reescrevíamos depois, muitas e muitas vezes, enquanto nós mesmos não lembrávamos do amor. No fundo, talvez o poema seja apenas isso: o susto de termos encontrado uma coisa perdida há muito. Algo que estava ali o tempo todo, mas que não lembrávamos… E que, ao ser encontrado, nos olha de volta com um rosto que já não reconhecemos, mas que nos pertence.

©️ Beatriz Esmer

©️ BEsmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.