O Alfabeto das Cinzas

É um silêncio de ovo, esse que se instala quando a última lâmpada do sonho se apaga. Não é uma morte de sangue, dessas que se noticia com alarde; é uma morte de fibra, um desfiamento lento do eu. “Quando deixamos de sonhar, morremos dentro desta realidade crua de desafetos.” E o que resta? O osso. O osso seco da verdade sem enfeites.

A alma, que antes era melodia, torna-se um ruído de passos em corredor vazio. Eu me pergunto: onde vai o suspiro quando a esperança desiste de nós? A realidade, essa coisa árida e pontiaguda, nos espeta com a sua falta de mistério. Viver sem o sonho é como tentar ler um livro em branco sob um sol de meio-dia: a luz é tanta que cega, mas nada se vê.

Neste campo de desafetos, a indiferença tem a consistência de uma gelatina cinza. Não há ódio, o que seria quase um alento; há apenas o não-ser. O impossível, que outrora era o meu jardim secreto, agora é apenas uma parede caiada.

Sonhar não é luxo, é a própria saliva da alma. Sem isso, a boca seca. A gente vira coisa. E a coisa não sofre, mas também não brilha. Sou bicho de labirinto, procurando a bússola que deixei cair no exato momento em que parei de imaginar. A realidade crua é um banquete de cinzas, e eu, faminta de estrelas, me vejo obrigada a mastigar o chão.

Matam-nos não os abismos, mas o nivelamento de todas as coisas. Morremos quando o mundo deixa de ser interrogação para virar apenas um ponto final, mudo e frio.

©️ Beatriz Esmer

©️BEsmer

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